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Vem surgindo uma onda de novas escritoras latino-americanas que produzem uma literatura que chega ao obscurantismo. “A Cachorra”, da colombiana Pilar Quintana, é enigmático ao explorar uma mãe complexa; “Morra, Amor”, da argentina Ariana Harwicz, entra na mente doentia de uma mulher que está passando por uma crise em sua família; e “É sempre a hora de nossa morte amém”, da brasileira Mariana Salomão Carrara, é neurótico ao narrar diversas formas de morrer.

“Rinha de Galos”, livro de contos da equatoriana María Fernanda Ampuero, segue o caminho radical traçado por seus irmãos sul-americanos: Ampuero cria um mundo de ultraviolência de diversas formas de aniquilamento, onde quem não mata, morre de alguma forma.

A coleção dos 13 contos leva o leitor a explorar cenários aparentemente banais, com as histórias centradas na vida familiar. No entanto, essa fachada de normalidade é rapidamente despedaçada logo no primeiro conto, intitulado “Leilão”. Nessa narrativa arrebatadora, somos transportados para um armazém desconhecido, imersos nos odores nauseantes que evocam memórias de infância de uma jovem forçada pelo pai a limpar os destroços sangrentos de brigas de galos. Mas o pesadelo da protagonista está apenas começando quando ela é sequestrada durante um inocente passeio de táxi, caindo nas garras do tráfico humano, onde o destino é determinado pelo maior lance. Ampuero habilmente tece atos sutis de desafio ao longo da narrativa, revelando o poder silencioso da resistência enquanto desvenda o destino final da personagem no desfecho impactante da história.

O que torna essa coleção ainda mais notável é a perspectiva das histórias, muitas vezes contadas através dos olhos de uma criança. Em “Griselda”, por exemplo, testemunhamos a violência contra as mulheres sob a ótica de uma criança que, ao invés de horrorizar-se com a brutalidade infligida à sua vizinha, Griselda, lamenta a perda do padeiro do bairro, famoso por criar bolos exuberantes para as crianças. Esta narrativa habilmente tece uma reflexão sobre o feminicídio, expondo uma sociedade que parece insensível à violência contra as mulheres.

No entanto, “Rinha de Galos” não é um livro sem esperança. Sua última história, intitulada “Outros”, lança um vislumbre de otimismo para o futuro das mulheres. Nessa narrativa, uma mulher, há muito aprisionada pelo domínio de seu marido abusivo, decide tomar as rédeas de sua própria vida. Semanalmente, ela compra os alimentos preciosos para o marido, mas nas cenas finais, ela se cansa dessa subserviência e escolhe se libertar, optando por um caminho fora do controle opressivo do marido.

Mas apesar da narrativa radical e ultraviolenta, os contos de Ampuero pecam em alguns momentos por não apresentarem uma conclusão digna do seu desenvolvimento. E apesar das histórias se tratarem da vida trágica de personagens, a autora não consegue fazer com que o leitor sinta empatia por essas pessoas. Finalmente, Ampuero também entrega as conclusões dos contos de mãos beijadas aos leitores, não confiando que eles teriam a capacidade de entender sobre o que ela está escrevendo.

De qualquer forma, María Fernanda Ampuero consegue com “Rinha de Galos” entregar uma coleção que não apenas revela as sombras da sociedade latino-americana onde o abuso emocional, físico e sexual se manifesta como uma Hidra multifacetada, mas também lança luz sobre o potencial de superação e transformação.


“Rinha de Galos”, María Fernanda Ampuero

Editora Moinhos

Avaliação: 3 de 5.

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Comments (

1

)

  1. Anônimo

    oooooo

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