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Com “Quem matou meu pai”, Édouard Louis faz uma apologia a quem mais lhe fez sofrer

Escritor francês reflete sofre seu amor e sua raiva, e qual a relação de ambos com o cenário político de seu país

Com “Quem matou meu pai”, Édouard Louis faz uma apologia a quem mais lhe fez sofrer

Escritor francês reflete sofre seu amor e sua raiva, e qual a relação de ambos com o cenário político de seu país



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Diferente de suas obras anteriores, em que mesmo contendo uma explícita inclinação para a autobiografia ainda assim foram considerados romances, “Quem matou meu pai”, do escritor francês Édouard Louis, assume uma abordagem direta e perspicaz de um relacionamento complexo entre o autor e seu pai.

Quem previamente leu “O Fim de Eddy”, pode ter acreditado que o autor ainda vive em ressentimento com o pai, que tanto lhe fez sofrer. No entanto, Louis surpreende e “Quem matou meu pai” consegue explorar o amor e a raiva sentidas por ele, à medida que busca compreender e confrontar seu pai, revisitando eventos passados para justificar e condenar suas ações.

Édouard Louis. Foto Divulgação.

Desde o início, Louis contextualiza o relacionamento com seu pai em um cenário político, conectando-o a eventos e ideologias, incluindo o voto de seu pai na política de extrema-direita de Marine Le Pen. Ele ilustra como a homofobia e o racismo moldaram a vida de seu pai e, ao mesmo tempo, revela a luta de seu pai contra um sentimento de invisibilidade, em uma sociedade que parece não se importar com ele.

O livro destaca o esforço de Louis para entender por que seu pai apoiou candidatos tão controversos, ecoando a busca de muitos por compreender a ascensão de figuras políticas polarizadoras, como ocorreu durante a administração Trump. É uma abordagem que lança uma luz crua sobre os temas da classe social, injustiça, pobreza e sofrimento, destacando a importância contínua da política na vida de muitos indivíduos.

A escrita contundente e intransigente de Louis é refrescante no cenário literário, especialmente quando se trata de críticas de classe e da miséria da pobreza, que muitas vezes são negligenciadas. No entanto, o autor corre o risco de parecer redundante ao repetir os mesmos argumentos e reflexões ao longo do livro. Sua raiva radical é evidente, mas a questão central é se ele convence efetivamente alguém que não compartilha suas visões políticas. Para ser sincero, embora muitas de suas reflexões sejam válidas, outras parecem clichês da esquerda.

É inegável que Édouard Louis é um autor comprometido com suas convicções, e sua escrita serve como um lembrete da importância de se confrontar a classe dominante e promover a mudança social. Porém, a obra pode não ser inovadora o suficiente para atrair leitores que discordam de suas opiniões preexistentes. Na verdade, ela parece ser mais um trabalho para quem já concorda com as opiniões de Édouard Louis.

Louis ainda precisa aprofundar seu alcance e amadurecer como escritor, mas sua determinação em falar a verdade à classe dominante e seu ativismo radical continuam sendo aspectos valiosos de sua obra. “Quem matou meu pai” é uma leitura importante para aqueles que compartilham suas perspectivas políticas e um lembrete de quem são os verdadeiros algozes da sociedade contemporânea.


“Quem matou meu pai”, Édouard Louis

Editora Todavia

Avaliação: 3 de 5.

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