Em meio ao bazar das contradições humanas, o universo LGBTQIAPN+ não poderia deixar de apresentar suas próprias nuances intrigantes. Nas trincheiras do ressentimento e da aparente incompreensão, encontramos um campo minado: a dicotomia entre gays afeminados e aqueles que se encaixam no padrão másculo, musculoso e branco.
Alguns gays afeminados se veem às voltas com a queixa de que seus colegas “padrões” não demonstram grande interesse em partilhar afeto com eles. O curioso é que esses gays afeminados que criticam o comportamento dos padrões ao mesmo tempo mendigam um pouco de sexo a eles, configurando uma completa contradição. Arrisco dizer que esses homens homossexuais se aproximam muito dos incels.
É como se achassem que deveria existir um contrato social não escrito, no qual os gays padrões devessem sua libido aos gays afeminados. No vasto reino das relações humanas, ninguém é credor do prazer alheio, muito menos por força de estereótipos. Como dito pelo cronista João Pereira Coutinho em sua coluna na Folha de S.Paulo, a alma do ser humano tende a querer coisas fáceis, e nada é mais fácil do que desejar o que é objetivamente belo.
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Por isso é irresistível notar a ironia nas críticas lançadas pelos gays afeminados, que apontam o dedo acusador enquanto, secretamente, também anseiam pelo imaculado padrão. A hipocrisia, ao que parece, é uma lente pela qual muitos preferem não enxergar.
Quanto ao tão proclamado “direito ao sexo”, levantado pela filósofa Amia Srinivasan em seu livro provocador, “O Direito ao Sexo”, sou obrigado a discordar. Em um mundo onde cada indivíduo é livre para decidir com quem compartilhar sua intimidade, clamar por um direito ao sexo parece mais um devaneio utópico do que uma reivindicação pragmática.
Claro que Srinivasan não prega métodos coercitivos para fazer com que pessoas transem com quem elas não desejam. No entanto, a filósofa convida o leitor para se questionar sobre seus desejos, numa tentativa de esticar esses mesmos desejos àqueles que normalmente não são desejáveis. Ou seja, por meio da conscientização, domar o próprio desejo.
No fim das contas, que cada um ame e se relacione com quem bem entender, sem a necessidade de enredos românticos moldados por convenções. Sexo por piedade é um sexo que todos deveriam abominar.
Foto de capa: Vlad Zorin




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