“Homem no Banho”, dirigido por Christophe Honoré, parte da dissolução de um casal para explorar o que resta depois do rompimento. Emmanuel, vivido por François Sagat, permanece em Gennevilliers, um subúrbio de Paris, enquanto Omar, interpretado por Omar Ben Sellem, viaja a Nova Iorque para promover um filme. A partir dessa separação, a narrativa se divide em dois caminhos que correm paralelos.
Desde o início fica claro que o interesse do diretor não está em criar uma trama convencional. Ele escolhe filmar o corpo de Emmanuel como território de conflito, desejo e solidão, e observa Omar em deslocamento, quase sempre através de uma câmera digital que confere ao filme um aspecto de registro. A fotografia é seca, a montagem alterna ritmo e inércia, e a narrativa parece mais interessada em sugerir estados do que em descrevê-los. Honoré já declarou que seu desejo era “filmar corpos” e não apenas diálogos, e essa escolha coloca o filme em torno daquilo que poderíamos chamar de encarnação no sentido filosófico: o corpo como espaço do sentir e do errar, não como instrumento de representação.
Entre os méritos de “Homem no Banho” está a maneira como recria um ambiente contemporâneo de desejo e abandono. Emmanuel, com seu corpo escultural e presença inquieta, é o centro de uma observação que alterna fascínio e desconforto. A câmera o acompanha em encontros casuais, nas caminhadas sem rumo, nas pequenas transações que parecem misturar sexo e sobrevivência. Há força nesses momentos em que o físico e o emocional se confundem, sugerindo uma masculinidade em colapso. A trilha sonora e a montagem reforçam essa oscilação, com músicas pop e trechos de música clássica que aparecem como respiros inesperados.
O filme, no entanto, sofre com os próprios limites. A alternância entre Paris e Nova Iorque enfraquece a unidade narrativa e o segmento nova-iorquino soa mais disperso, como se fosse um material filmado à margem da proposta inicial. Alguns diálogos parecem improvisados sem a densidade necessária, e isso gera uma sensação de vazio em certos trechos. A promessa de reflexão sobre a relação entre corpo e afeto se dilui em fragmentos que nem sempre se conectam. “Homem no Banho” por vezes se perde entre o que quer mostrar e o que de fato mostra.
O filme é relevante por abordar a vulnerabilidade masculina com uma franqueza pouco comum, sem recorrer à caricatura ou ao moralismo. François Sagat entrega um personagem físico e introspectivo, capaz de transmitir uma melancolia bruta, quase animal. Ainda assim, a obra não alcança a intensidade que parece prometer, ou que ela almeja. Em muitos momentos, ela se contenta em observar sem mergulhar de verdade.
Há também um comentário subentendido sobre o poder e a exposição. Emmanuel é desejado, usado e descartado, e cada gesto seu parece reagir a essa oscilação. O corpo torna-se tanto um recurso quanto uma prisão. Quando um personagem o chama de “arte ruim”, o comentário revela o incômodo de um mundo que exige do homem não apenas força, mas também performance estética, apesar de que no final nem isso basta. Essa tensão é um dos aspectos mais interessantes do filme, ainda que Honoré não a explore até o fim.
“Homem no Banho” é uma obra irregular, mas sincera. Vale pela tentativa de retratar o amor gay sem a pretensão da universalidade, ancorado em corpos reais e fragilizados. Christophe Honoré entrega um filme que pulsa por instantes e se apaga em outros, como uma lembrança que ainda insiste em permanecer.
“Homem no Banho”, Christophe Honoré




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