“The Boston Strangler”, de Richard Fleischer, não é uma mera reconstituição dos crimes que aterrorizaram Boston no início dos anos 60. É, antes de tudo, uma imersão perturbadora na paranoia coletiva e nas fragilidades do sistema de justiça da época. Tony Curtis, em uma atuação surpreendentemente contida, encarna Albert De Salvo, o homem eventualmente apontado como o responsável por treze assassinatos. Mas o filme se distancia de um perfil psicológico simplista, preferindo explorar a ambiguidade da verdade e a complexidade da histeria social.
Fleischer utiliza uma narrativa fragmentada, quase documental, para acompanhar tanto a investigação policial, liderada por Henry Fonda, quanto a progressiva desintegração mental de De Salvo. A tela dividida, recurso estilístico marcante, amplifica a sensação de caos e incerteza, refletindo a fragmentação da própria realidade diante de um crime tão horrendo. O filme questiona a narrativa oficial, insinuando que a busca por um culpado pode ter levado a conclusões apressadas, sem necessariamente desvendar a totalidade dos horrores cometidos.
A obra transcende o gênero do thriller policial para se tornar um estudo sobre a natureza da culpa e a facilidade com que a sociedade pode encontrar bodes expiatórios. A atmosfera sufocante, a trilha sonora dissonante e a fotografia em tons frios contribuem para uma sensação de mal-estar constante, que ecoa o pânico que tomou conta da cidade. Mais do que resolver um mistério, o filme busca entender as origens da violência e as consequências devastadoras que ela provoca, tanto nas vítimas quanto nos perpetradores. Há uma certa aplicação da navalha de Occam, onde a explicação mais simples, a princípio, é considerada, mas o filme tece dúvidas sobre essa escolha simplista.
“The Boston Strangler” permanece relevante por sua capacidade de evocar o medo primordial que reside no desconhecido e a fragilidade da sanidade em face de eventos traumáticos. Longe de oferecer um final redentor, o filme deixa o espectador confrontado com a inquietante percepção de que a verdade, muitas vezes, permanece enterrada sob camadas de especulação e conveniência.




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