Publicada em 1958 como segunda entrada no ciclo ferrarense de Giorgio Bassani, “Os óculos de ouro” é uma novela de pouco mais de cem páginas sobre o que acontece quando uma sociedade percebe que pode punir alguém com total impunidade. Situada em Ferrara entre 1936 e 1938, nos anos que antecedem a promulgação das leis raciais na Itália fascista, a narrativa segue, em retrospecto, um jovem judeu sem nome que observa a lenta destruição pública do doutor Athos Fadigati: um otorrinolaringologista vindo de Veneza que havia conquistado, ao longo de duas décadas, a confiança e o respeito da burguesia local. O instrumento da queda é a homossexualidade. À medida que os rumores sobre o médico se tornam certeza pública e depois escândalo aberto, a cidade vai se reorganizando ao redor da sua exclusão com uma eficiência quase maquinal.
A estrutura do livro apoia-se sobre uma analogia deliberada: o destino de Fadigati e o destino do próprio narrador como judeu numa Itália que começa a construir sua arquitetura de ódio. Bassani não precisa sublinhar o paralelo. A identificação entre os dois emerge naturalmente do medo que ambos compartilham, o medo de se tornar aquilo que os outros já decidiram que você é. Nesse ponto, a novela encontra sua ressonância mais precisa com o que Hannah Arendt chamou de “pária consciente”: aquele que, ao contrário do parvenu que tenta se assimilar apagando o que o distingue, aceita sua posição de excluído como condição de uma clareza moral que os integrados nunca terão. Fadigati, no entanto, não é exatamente esse tipo: ele não escolhe sua marginalização, ela o alcança. E Bassani registra essa diferença com uma frieza que é, ao mesmo tempo, o maior mérito e o maior limite do livro.
Porque “Os óculos de ouro” é, acima de tudo, uma obra sobre distância. A prosa de Bassani opera com contenção exemplar, quase entomológica. Há uma elegância real na maneira como ele reconstrói o ambiente da pequena cidade provinciana, a vida dos estudantes nos trens entre Ferrara e Bolonha, o ritmo das temporadas na praia de Riccione, onde Fadigati aparece cada vez mais exposto, cada vez mais incapaz de sustentar a performance de respeitabilidade que o havia protegido por décadas. Há momentos em que a precisão da observação produz um efeito genuinamente inquietante: a hipocrisia da burguesia local, que conhecia os hábitos do médico havia anos mas só os torna um problema quando ele deixa de ser discreto, está capturada sem precisar de qualquer didatismo.
O problema é que essa mesma contenção, quando aplicada ao narrador, resulta num personagem que permanece opaco de um modo que não parece intencional. Ele observa Fadigati, move-se ao redor dele, desenvolve algo que se aproxima de compaixão, mas nunca atravessa a distância que o separa do médico de maneira que o leitor possa acompanhar. A identidade judia do narrador, que deveria funcionar como o fio que ata as duas histórias de exclusão, aparece de forma tão periférica que a simetria proposta pelo livro fica mais esquemática do que sentida. Bassani quer que o leitor perceba a equivalência entre os dois tipos de perseguição, mas a economia narrativa tão extrema que ele pratica acaba por esvaziar o narrador antes que ele possa se tornar uma presença real na história. É possível terminar o livro sem saber quase nada sobre quem nos guiou por ele.
Isso pesa. A novela funciona melhor como retrato de época do que como romance de formação, melhor como documento oblíquo do fascismo cotidiano do que como exploração das subjetividades que ele oprime. A crítica ao conformismo burguês é precisa e eficaz. O fascismo, aqui, não aparece como ruptura dramática, mas como continuidade da crueldade ordinária que a vida social já praticava: o preconceito que existia antes das leis simplesmente ganha permissão institucional. Essa é a leitura mais interessante que “Os óculos de ouro” oferece, e ela é genuinamente valiosa.
Mas um livro que tem ambições humanas precisa entregar humanidade, e aqui Bassani entrega sobretudo forma. A elegia do tom, a contenção da prosa, a simetria das duas exclusões: tudo isso constitui uma obra tecnicamente admirável. O que ela não constitui é uma obra que permanece no leitor como experiência. O doutor Fadigati, personagem central e figura de compaixão possível, é visto sempre de longe, sempre mediado pelo narrador, e acaba por se tornar menos uma pessoa do que uma demonstração. A brutalidade do seu fim, que Bassani também narra com economia, produz choque, mas nem de longe dor. Há algo faltando na equação.
“Os óculos de ouro” é, portanto, uma obra que cumpre o que promete: ser uma novela fina, rigorosa, historicamente situada, moralmente clara. A questão é se isso é suficiente para um material que poderia ter sido devastador.
Nota:





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