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Os pobres têm razão em rejeitar a CLT

A classe que subiu nos governos do PT fez as contas da carteira assinada e encontrou um teto


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No primeiro turno, Lula teve mais votos em Ipanema, no Leblon e em Laranjeiras do que em 2022. Em São Paulo, cresceu em Higienópolis, em Pinheiros e em Santa Cecília, e nos bairros do dinheiro antigo chegou a bater Flávio Bolsonaro. Os números são do jornalista Pedro Doria, do Meio, que destrinchou o mapa da votação, e desmontam com alguma crueldade o enredo favorito da esquerda brasileira, aquele em que o adversário mora na cobertura. A classe A, uns 3% do país, foi a segunda melhor faixa do presidente. A melhor foi a classe E, a dos brasileiros que sem o Bolsa Família teriam dificuldade de fazer três refeições por dia.

Flávio, ainda assim, terminou na frente, com 47% dos votos válidos contra 45% de Lula. Teve 5 milhões de votos a mais do que o pai no primeiro turno de 2022, enquanto o presidente perdeu mais de 3 milhões. A diferença se abriu no meio da pirâmide. Está na classe C das periferias de cidades como Osasco e Contagem e, sobretudo, na dos municípios com menos de 50 mil eleitores, de economia agrícola, onde vive cerca de metade dos que votaram em Lula há quatro anos e agora migraram para o senador. É a classe média baixa que a Nova República criou e que os governos petistas mais fizeram crescer, o que dá ao resultado um gosto de ingratidão para quem prefere não entender o que houve.

Para entender a recusa, convém voltar à origem do contrato. A CLT é de 1943 e pertence a um projeto de país desenhado nos anos 1930, que apostava em poucas empresas muito grandes. Elas pagariam o grosso dos impostos e empregariam centenas de milhares de pessoas, que entrariam às nove, sairiam às cinco, teriam um mês de férias e uma aposentadoria à espera. Para quem tem diploma, o arranjo funciona tão bem que nem chega a ser percebido como arranjo. Para quem entrou no mercado de trabalho com o ensino médio, o mesmo contrato promete outra coisa, que Doria resume na imagem de alguém chegando aos 55 anos como gerente de farmácia ou de supermercado.

É uma promessa honesta, e é por ser honesta que vem sendo recusada. Quem a recusa viveu nas últimas duas décadas uma experiência sem precedentes no Brasil, a de subir de classe. Deixou de se preocupar com o prato de comida e passou a se preocupar com o boleto do fim do mês, o que é uma forma de progresso, e quer seguir adiante, trocar de bairro, ter um carro do ano. A carteira assinada garante que essa pessoa não caia. Garante com a mesma firmeza que ela não suba, porque o salário de quem não tem faculdade encosta cedo no limite e ali permanece.

A conta que esse eleitor faz está certa. Se o emprego oferece estabilidade e horizonte curto, a única escada disponível passa pelo negócio próprio, a oficina, o salão, a loja de bairro com três funcionários. Ninguém ali ignora o preço. Quem abre um MEI abre mão de férias pagas, de décimo terceiro e de FGTS, trabalha mais horas e pode quebrar no segundo ano. A escolha é feita de olhos abertos, por gente que conhece o risco melhor do que qualquer colunista e que prefere a possibilidade de crescer à certeza de ficar onde está.

A esquerda olhou para esse brasileiro e achou graça. Chamou-o de pobre de direita, de evangélico manipulado pelo pastor, de CEO de MEI, sempre com a ironia de quem avisa que aquele sonho é grande demais para o sonhador. A contraproposta, quando veio, foi o próprio teto embrulhado como prêmio: você vai trabalhar na farmácia, vai ter plano de saúde, e a vida vai ser boa. Dito por quem nasceu alguns andares acima, isso soa como uma ordem para ficar no lugar.

O diagnóstico nunca esteve escondido. Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, Esther Solano e Rosana Pinheiro-Machado descrevem esse eleitor há anos, com grupo focal e trabalho de campo. Em 2017, a Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, foi às periferias de São Paulo entender por que o partido perdia votos e ouviu que o Estado era visto como inimigo. Pesquisa mais antiga, do tempo em que Marta Suplicy perdeu a eleição, já registrava o eleitor da classe C creditando a melhora de vida ao próprio esforço, a Deus e à família, com o governo num distante quarto lugar. O retrato estava pronto, encomendado pela própria casa, e o discurso seguiu o mesmo.

O que essa gente pede é outro modelo de Estado. Um país onde seja fácil abrir e manter empresas de três, cinco, dez funcionários, no lugar de um país organizado em torno de poucas gigantes e de quem trabalha para elas. Há Estado nesse pedido, só que voltado para quem emprega pouco e arrisca muito. Falta quem se disponha a desenhá-lo.

A direita tampouco o desenhou. Doria a chama de demagógica, e com motivo, porque ela não tem plano algum para reformar o Estado a favor do pequeno empreendedor. O que faz, nas redes, é levar o sonho a sério, e na falta de concorrência o respeito tem bastado. Tem bastado por pouco. Desde janeiro o voto em Lula é uma linha reta nas pesquisas, enquanto o de Flávio sobe e desce ao sabor do noticiário, comportamento de eleitor que escolhe sem convicção.

Doria recorre aqui a uma tese do jornalista americano Chuck Todd. Com dois blocos congelados, quem decide é uma fatia de 3% a 5% do eleitorado que muda de lado a cada eleição porque ninguém lhe resolve a vida. No Brasil, seria o eleitor que votou em Dilma em 2014, em Bolsonaro em 2018, em Lula em 2022 e em Flávio agora. Ele pune quem está no poder e seguirá punindo.

A recusa da CLT é o juízo prático de quem conhece o próprio contracheque e sabe até onde ele leva, e quem insiste em explicá-la por alienação ou fake news apenas adia a conversa. A esquerda, que sempre viveu de oferecer futuro aos pobres, hoje lhes oferece um teto com vale-refeição e se espanta de vê-los procurar a escada em outro lugar. O segundo turno é no dia 25, e nenhum dos dois candidatos falou até agora do país que essa gente quer. Enquanto ninguém falar, ela continuará fazendo a única coisa que o sistema lhe permite fazer com a própria frustração, que é trocar de lado a cada quatro anos.


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