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“Love”, de Gaspar Noé, é um filme pornô com historinha

Longa do diretor franco-argentino é uma tentativa ambiciosa de explorar o amor através de uma lente exclusivamente sexual


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Em uma obra, frequentemente nos vemos encantados por personagens que ao mesmo tempo não admiramos. Isso porque mesmo sendo desprezível, uma personagem precisa de carisma. No filme “Love”, de Gaspar Noé, nenhuma personagem possui esse atributo.

O longa do diretor franco-argentino é uma tentativa ambiciosa de explorar o amor através de uma lente exclusivamente sexual. De fato, apesar de defensores do relacionamento aberto alegarem a possibilidade de se separar amor de sexo, a relação sexual continua sendo o momento de mais intimidade entre duas pessoas. Mas embora apresente uma intenção provocadora, o filme se perde em sua própria indulgência, resultando em uma experiência cinematográfica que é mais pretensiosa do que profunda.

No centro da trama, Murphy está frustrado com a vida que leva, ao lado da mulher e do filho. Um dia, ele recebe um telefonema da mãe de sua ex-namorada, Electra, perguntando se ele sabe onde ela está, já que está desaparecida há meses. Mesmo sem a encontrar há anos, a ligação desencadeia uma forte onda saudosista em Murphy, que começa a relembrar fatos marcantes do relacionamento que tiveram.

Desde o início, somos bombardeados por uma sucessão de cenas de sexo explícito, onde a narrativa é frequentemente eclipsada pela exibição gráfica de corpos entrelaçados. Embora haja momentos de beleza visual, cortesia da habilidade do diretor de fotografia Benoît Debie, a sensação de voyeurismo muitas vezes obscurece qualquer profundidade emocional que o filme tenta alcançar.

As personagens, em sua maioria unidimensionais, são reduzidos a meros arquétipos de desejo e autodestruição. Todos são muito desinteressantes, e sou capaz de apostar que eles discordam com muita certeza disso. Murphy, é um protagonista desprovido de carisma ou profundidade, cujas ações muitas vezes parecem arbitrárias e carentes de motivação genuína. O mesmo se aplica a Electra e os outros personagens, que parecem existir apenas como veículos para as fantasias e obscuridades do diretor.

Enquanto Noé tenta transmitir uma mensagem sobre a natureza complexa do amor e do desejo humano, suas tentativas muitas vezes caem no exagero e na autoindulgência. O uso frequente de flashbacks e reflexões temporais confunde mais do que esclarece, resultando em uma narrativa fragmentada e desconexa.

Além disso, o filme sofre de uma falta de substância emocional, com momentos de suposto drama muitas vezes parecendo forçados e melodramáticos. A falta de química entre os personagens principais apenas reforça essa sensação de artificialidade, tornando difícil para o espectador se investir verdadeiramente em seu destino.

“Love” é uma experiência cinematográfica decepcionante, cujo potencial é frustrado por uma execução falha. Apesar de suas tentativas de desafiar as convenções e tabus da sociedade, o filme falha em oferecer uma reflexão verdadeiramente provocativa sobre o amor e a sexualidade. Em vez disso, é um exercício de autoindulgência que, embora possa atrair alguns pela sua ousadia, deixa muito a desejar em termos de profundidade e substância.


“Love”, Gaspar Noé

Disponível no MUBI

Avaliação: 2 de 5.

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