Ao optar por atravessar dois gêneros que, à primeira vista, podem parecer antagônicos — a leveza afiada da comédia de palco e o peso cortante de um drama sobre trauma —, Ally Pankiw corria o risco de ver sua história se desdobrar em trechos arrastados. De fato, I Used to be Funny abraça esse desafio, mas não escapa da monotonia que insiste em ressurgir quando o enredo recorre a saltos no tempo pouco inspirados e em aguardar revelações que chegam tarde demais. A trama gira em torno de Sam, vivida por Rachel Sennott, uma comediante que, outrora ágil com a palavra e capaz de arrancar gargalhadas, agora se afasta do palco. O espectador logo percebe que essa inversão não se trata apenas de um hiato criativo: antes verdadeiras barreiras contra os aplausos, a memória fraturada e as consequências de um evento mantido sob sigilo tornaram a protagonista incapaz de retomar seu ofício.
Embora a abordagem mista pareça instigante no papel, na prática o filme alterna cenas que poderiam ser eletrizantes com outras que apenas prolongam a sensação de espera. Quando acompanhamos Sam em seus esforços para cuidar de Brooke, a jovem cuja mãe está à beira da morte, é possível sentir certa urgência dramática. As cenas em que elas dividem confidências ou gorjeiam pequenas piadas sobre banalidades cotidianas conseguem transmitir empatia e calor humano. No entanto, essa energia cede lugar a sequências em que a câmera se demora no rosto abatido da comediante, focando em suas hesitações diante de ações simples — tomar banho, atender a porta, enfrentar o possível retorno aos palcos. Essas escolhas reforçam a ideia de que a personagem vive em um limbo emocional, mas acabam por tornar o ritmo tão arrastado que, por vezes, o tédio assume o controle. Afinal, em várias ocasiões, fica nítido que mais está em jogo a espera por um momento de virada do que a progressão natural da narrativa.
O uso de flashbacks para revelar detalhes sobre a relação de Sam e Brooke poderia ser a melhor parte do filme, mas também se transforma em um faca de dois gumes. Em sua versão mais eficiente, um retrato fragmentado de memórias pode provocar um senso de descoberta crescente, mas aqui a alternância entre passado e presente nem sempre oferece pistas na quantidade certa. Em certos momentos, a edição parece hesitar entre dar pistas demais e revelar quase nada, criando a impressão de que a trama é sustentada por um suspense excessivamente estendido. Alguns eventos soam previsíveis, e quando finalmente emergem, têm impacto reduzido justamente porque já se reconheciam possíveis desdobramentos. O resultado é que a expectativa se esvai antes mesmo que as revelações assumam corpo.
Por outro lado, não se pode ignorar a atuação de Rachel Sennott, que sustenta grande parte do peso dramático e também tenta, sempre que possível, injetar leveza nos diálogos. No passado, a Sam que enfileirava piadas diante de plateias parece ter sido uma versão mais livre, capaz de transformar gestos corriqueiros em provocações cômicas afiadas. Quando a vemos retornar timidamente ao microfone — ainda que por breves instantes —, percebemos que Sennott consegue enfatizar a fragilidade de uma artista que teme não pertencer mais àquele ambiente. Mesmo assim, a impressão que perdura é de que, frequentemente, a atuação dramática e a atuação cômica não chegam a se fundir com fluidez, criando um descompasso tonal. Há momentos em que as piadas soam deslocadas ou pouco inspiradas, e outros em que o clima de mistério parece destoar do universo de stand-up. Essa dicotomia impede que o público se envolva completamente com as motivações de Sam, pois o filme não permite uma imersão prolongada em nenhum dos dois territórios.
A direção de Pankiw acerta ao detalhar o cotidiano de uma comediante em crise, ao mostrar o espaço exíguo de um apartamento escuro, as luzes frias do tribunal onde Sam se vê acusada de forma indireta — pois seus textos de stand-up são usados contra ela — e o vai e vem de personagens que, na prática, pouco acrescentam à tensão principal. O uso de cores mais quentes nos flashbacks contrasta com os tons acinzentados do presente, mas essa diferença visual não é suficiente para sustentar o dinamismo da narrativa. Além disso, a trilha sonora, que em outros filmes de gênero similar poderia aliviar a sensação de estagnação, aqui tende a se sobrepor em momentos desnecessários, criando um ruído que reforça a sensação de que o filme não sabe exatamente quando avançar ou parar.
Há cenas promissoras, como o confronto em que Sam tenta emitir uma palavra de resposta a quem a questiona sobre credibilidade, mas ainda assim o roteiro não estende o convite ao espectador para corresponder a essas tensões. A impressão que fica é de que as apostas dramáticas existem mais no papel do que nas imagens. Num pano de fundo em que o conceito filosófico de autenticidade poderia ressoar como tema central — pois a protagonista luta para retomar uma voz própria —, o filme deixa de explorar de modo mais profundo a relação entre um artista e sua verdade interior, concentrando-se na expectativa de revelações em vez de aprofundar o caráter das pessoas envolvidas.
Por fim, embora se reconheça a intenção de discutir temas relevantes como a instrumentalização da fala em ambientes de julgamento e a ambiguidade entre aparência pública e verdade íntima, I Used to be Funny acaba se tornando chato em muitos momentos. A sensação de potencial desperdiçado surge tanto pela irregularidade da trama quanto pela escassez de momentos em que a empatia se sustente a ponto de anular o tédio. Quando as reviravoltas finalmente emergem, são breves e logo cedem lugar a novas pausas prolongadas. Assim, mesmo que o filme apresente ideias pertinentes e um crédito aspirante para quem deseja discutir os limites entre comédia e trauma, a experiência de assisti-lo não é exatamente agradável. Resta a sensação de que, por mais que haja lampejos de material promissor, a execução falha em transmitir algo que prenda a atenção de forma contínua, tornando a obra mais um exemplo de ambição não concretizada do que um arranjo sólido e coeso.
“I Used to be Funny”, Ally Pankiw
Stremio




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