Monia Chokri, em seu filme Babysitter, parece jogar todas as regras da etiqueta cinematográfica pela janela para criar uma obra que é tanto um carnaval visual quanto uma exploração visceral das falhas humanas. Adaptado da peça homônima de Catherine Léger, o longa é uma sátira que dança entre a comédia escrachada, o surrealismo e um terror estilizado, compondo um mosaico tão inquietante quanto fascinante.
A história começa com Cédric, um homem de meia-idade, preso em sua própria mediocridade e misoginia casual. Após uma noite regada a testosterona e álcool, ele se torna viral por assediar uma repórter ao vivo, beijando-a sem consentimento. Esse evento catalisador o força a confrontar suas atitudes e a entrar numa jornada cômica — e frequentemente desastrosa — de “desconstrução”. O problema? Ele arrasta todos ao seu redor para o vórtice de sua transformação improvisada, incluindo sua esposa Nadine, sua filha recém-nascida e seu irmão Jean-Michel, um feminista performático cuja autoimagem progressista beira o caricato.
Chokri equilibra essa narrativa com um visual deslumbrante e frenético. Cada frame parece construído para provocar desconforto e admiração, frequentemente ao mesmo tempo. Close-ups exagerados, iluminação que evoca o Technicolor dos anos 1960 e cortes rápidos criam um ritmo que é quase impossível de acompanhar sem se sentir à beira de uma sobrecarga sensorial. É como se cada escolha estética gritasse: “Você está prestes a ver algo que não pode ignorar.”
A chegada de Amy, a babá enigmática, insere um elemento quase sobrenatural na história. Com sua presença, as tensões sexuais e emocionais dos personagens explodem em direções imprevisíveis. Amy não é apenas uma figura de auxílio doméstico; ela é uma catalisadora, forçando Nadine a confrontar seu tédio existencial e Cédric a encarar seu desejo reprimido. Há uma qualidade onírica em suas interações, como se ela fosse mais um reflexo das ansiedades e frustrações de cada personagem do que uma pessoa real.
Nadine, interpretada pela própria Chokri, emerge como o núcleo emocional do filme. Sua depressão pós-parto, combinada com sua sensação de alienação, cria um contraponto sombrio à comédia absurda dos outros personagens. Enquanto Cédric e Jean-Michel mergulham em seus manifestos narcisistas de autocrítica, Nadine busca uma forma de se reconectar consigo mesma, mesmo que isso signifique escapar para motéis baratos para simplesmente dormir.
No entanto, Babysitter nunca é apenas uma sátira de fácil digestão. Chokri explora as nuances de um mundo pós-#MeToo, onde a busca por redenção pode ser tão superficial e problemática quanto as ofensas que a motivaram. A jornada de Cédric e Jean-Michel para “melhorar” frequentemente cai no ridículo, expondo a superficialidade de suas tentativas de entender o feminismo enquanto continuam a ocupar todo o espaço emocional e físico da narrativa.
Ainda assim, o filme não deixa ninguém escapar ileso. Chokri também aponta o dedo para a cultura de hipersensibilidade que transforma cada deslize em um tribunal público. É um comentário complexo que nunca oferece respostas fáceis, optando por um humor ácido que desafia o espectador a rir mesmo quando não deveria.
Visualmente, o filme é uma festa de excessos. A cinematografia de Josée Deshaies e a edição de Pauline Gaillard criam uma experiência quase alucinógena, onde as cores vibrantes e os enquadramentos surrealistas brincam com a percepção. Isso reforça a sensação de que estamos observando uma farsa — mas uma que, em seus momentos mais estranhos, toca algo profundamente humano.
No clímax, Babysitter se transforma em algo mais sombrio e introspectivo. Nadine, após flertar com a ideia de sua própria libertação, finalmente reivindica o controle de sua narrativa. É nesse momento que o filme atinge seu ponto mais poderoso, questionando não apenas os papéis de gênero, mas também a própria ideia de quem tem o direito de se redefinir.
Monia Chokri criou uma obra desafiadora e deliciosa em sua estranheza. Babysitter é um filme que não apenas entretém, mas também desconcerta e, acima de tudo, força o espectador a confrontar seus próprios preconceitos e desconfortos. É uma comédia, um pesadelo e uma obra de arte, tudo ao mesmo tempo. E, como qualquer boa obra de arte, não se preocupa em ser fácil ou confortável.
“Babysitter”, Monia Chokri
Disponível no MUBI




Deixe uma resposta