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“A Hipnose” é uma ótima comédia sobre constrangimento social

Filme sueco lança um olhar satírico e desconfortante sobre startups, autorrealização e masculinidade moderna, onde mudanças pessoais revelam dilemas íntimos e dinâmicas de poder em um casal empreendedor


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“A Hipnose” tem como protagonistas Vera (Asta Kamma August) e André (Herbert Nordrum), que formam um ambicioso casal. Empreendedores idealistas e representantes da classe criativa millennial, eles desenvolvem um aplicativo que promete revolucionar a saúde menstrual em países em desenvolvimento. Vera, porém, carrega uma inquietação interna que explode após uma sessão de hipnoterapia. Originalmente planejada para ajudá-la a parar de fumar, a terapia desencadeia uma transformação radical. A mulher tímida e comedida dá lugar a uma personalidade imprevisível, que oscila entre a autoconfiança desinibida e um comportamento socialmente transgressor.

No início, André parece acolher com alívio a nova assertividade da parceira, especialmente quando ela confronta a mãe crítica e bem-sucedida. Contudo, o efeito libertador da hipnose logo vira um pesadelo. Durante um importante evento de pitches — onde startups competem por investimentos diante de uma plateia de magnatas tecnológicos —, Vera rompe todas as normas de etiqueta. Sua sinceridade desajeitada cativa o guru do evento, Julien (David Fukamachi Regnfors), mas deixa André constrangido e cada vez mais deslocado.

De Geer usa essa dinâmica para explorar as tensões de gênero e os paradoxos da masculinidade contemporânea. André, cuja identidade está profundamente atrelada à ideia de ser um “aliado progressista”, enfrenta o colapso de sua posição de controle na relação. A inversão de papéis é desconfortável para ele e para o espectador. Sua tentativa de manter as aparências diante de investidores é um espetáculo de vergonha alheia, como na sequência em que se acomoda em uma cadeira absurdamente alta, exacerbando sua inadequação.

O filme não se contenta em ser apenas uma sátira do mundo das startups. Ele mergulha em uma crítica incisiva à busca incessante pela autorrealização. Vera, em sua jornada de “encontrar o eu verdadeiro”, encarna os excessos dessa cultura: sua transformação é menos sobre autoconhecimento e mais sobre autoindulgência. A espontaneidade que inicialmente parece libertadora se transforma em desdém pelas convenções sociais, manifestada em cenas surreais, como seu ato de andar com um “chihuahua imaginário” ou se servir de leite no bar do hotel.

Visualmente, De Geer opta por uma abordagem minimalista, com planos médios claustrofóbicos que colocam o espectador dentro das interações desconfortáveis. A estética fria e limpa, típica do cinema nórdico, reforça a sensação de isolamento emocional. Esse estilo, combinado com a performance visceral de Asta Kamma August, cria uma atmosfera em que o humor e o constrangimento se fundem de maneira quase insuportável.

“A Hipnose” não oferece respostas fáceis. Ao final, o que emerge é um dilema relacional universal: até que ponto podemos amar alguém sem nos perdermos no processo? A transformação de Vera coloca em xeque a capacidade de André de aceitar a namorada em sua nova forma, questionando as fronteiras entre apoio mútuo e autossacrifício. Esse conflito culmina em um desfecho irônico, onde a exposição da vulnerabilidade humana é tratada com humor desconcertante.

Com sua crítica mordaz ao narcisismo contemporâneo e à performatividade das relações modernas, “A Hipnose” é um filme que provoca reflexão e desconforto na mesma medida. Ele desafia nossas noções de autenticidade, confronta os limites da empatia e nos força a encarar o que há de mais perturbador na busca pelo “verdadeiro eu”: a possibilidade de que, no fim, sejamos apenas insuportáveis.


“A Hipnose”, Ernst De Geer

Disponível no MUBI

Avaliação: 5 de 5.


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