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O passado causa um colapso conjugal no filme “O Drama”

Sob a direção de Kristoffer Borgli, filme tenta equilibrar a sátira social com um horror psicológico urbano


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Não pretendo enganar ninguém afirmando que a experiência de assistir a “O Drama” será agradável ou mesmo palatável. Existe uma probabilidade considerável de que o espectador termine a sessão tomado por um sentimento de repulsa ou, no mínimo, por um desconforto físico provocado pela sucessão de situações embaraçosas que Kristoffer Borgli empilha na tela. O longa habita um território de ansiedade aguda que parece desenhado especificamente para afastar o público médio, operando em uma frequência tonal que dificulta até mesmo a sua classificação comercial. O que começa como uma sátira social sobre a burguesia intelectual americana logo se transforma em um estudo de personagem sobre as consequências de portas que, uma vez abertas, jamais podem ser fechadas. A trama gira em torno de Charlie, interpretado por Robert Pattinson, um historiador de arte britânico radicado nos Estados Unidos que vive um romance aparentemente idílico com Emma, vivida por Zendaya. O casal, a poucos dias de subir ao altar, compartilha uma dinâmica de cumplicidade que é subitamente implodida durante um jantar com os amigos Rachel e Mike. Em meio a um jogo etílico de confissões sobre os piores atos já cometidos, Emma revela que, aos quatorze anos, planejou meticulosamente um ataque armado em sua escola, desistindo apenas porque um evento real e simultâneo em outro local acabou roubando o protagonismo de sua intenção violenta.

A partir desse ponto, o filme se desintegra propositalmente. Charlie, mergulhado em uma paranoia crescente, passa a observar a futura esposa como uma figura desconhecida, questionando se a normalidade dela é uma conquista genuína ou apenas uma máscara temporária. Borgli utiliza essa premissa para explorar a ideia de que todos somos habitados por versões em potencial que nunca se concretizaram, mas a execução falha ao tentar equilibrar o humor ácido com a gravidade do tema. Pattinson entrega uma atuação carregada de tiques e uma melancolia nervosa que, embora técnica, muitas vezes parece desconectada da realidade de um curador de museu comum. Zendaya, por outro lado, mantém uma postura contida, quase impenetrável, o que torna a revelação de seu passado ainda mais difícil de digerir para o público e para os personagens ao seu redor. A direção de arte e o design de som trabalham para reforçar esse estranhamento, utilizando ruídos ambientais dissonantes e cortes abruptos que mimetizam o estado mental fragmentado dos protagonistas. Contudo, o roteiro parece se perder em suas próprias provocações, estendendo sequências de vergonha alheia que perdem o impacto à medida que o filme caminha para um ato final forçado e excessivamente farsesco.

Há uma tentativa clara de evocar o cinema de Ruben Östlund ou Thomas Vinterberg, onde a etiqueta social é desmascarada por impulsos primitivos ou segredos inconfessáveis. No entanto, “O Drama” carece da precisão cirúrgica de seus predecessores. A premissa de que alguém quase cometeu um crime de massa é um artifício narrativo que soa frágil sob uma análise mais rigorosa, especialmente pela forma como o filme tenta humanizar essa pulsão sem oferecer uma base psicológica sólida. Em vez de investigar a fundo a natureza da culpa, a narrativa prefere orbitar o constrangimento imediato de Charlie. É possível enxergar aqui o conceito filosófico da angústia de Søren Kierkegaard, especificamente a ideia da vertigem da liberdade. Para Kierkegaard, a ansiedade surge não do medo de algo externo, mas da consciência de que somos capazes de qualquer coisa, inclusive do terrível. Emma personifica essa vertigem ao confrontar Charlie com a possibilidade de que a bondade dela é uma escolha diária, e não uma essência imutável. O problema é que Borgli trata essa complexidade como uma piada de mau gosto que se prolonga por tempo demais, resultando em um cansaço que anula a tensão inicial.

No fim das contas, a produção parece incerta sobre quem deseja atingir. É uma obra que se esforça para ser sofisticada e iconoclasta, mas que acaba se tornando prisioneira de seu próprio desejo de chocar. O desfecho, que tenta amarrar as pontas em uma reconciliação cínica em uma lanchonete de madrugada, falha em resgatar a humanidade que foi desgastada ao longo das duas horas anteriores. “O Drama” termina sendo uma experiência memorável pelo incômodo, mas vazia em sua conclusão, deixando a sensação de que o material de base era potente demais para a abordagem superficial e indecisa que recebeu na edição final. É um exercício de estilo que, apesar do brilho de seus nomes principais, não consegue sustentar o peso da própria pretensão intelectual.


Nota:

Avaliação: 2 de 5.

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