Cultivando arte e cultura insurgentes


MELHOR LEITURA

Não há descanso para os perdedores em “Rejeição”

Em livro de contos, Tony Tulathimutte transforma o fracasso social em uma obra de arte brutal e hilária

MELHOR LEITURA

Não há descanso para os perdedores em “Rejeição”

Em livro de contos, Tony Tulathimutte transforma o fracasso social em uma obra de arte brutal e hilária


Avatar de Hernandes Matias Junior

Siga: Twitter Instagram

Há uma certa pureza no ato de falhar que a literatura contemporânea, muitas vezes higienizada por boas intenções, evita tocar. “Rejeição” não compartilha dessa timidez. O livro é uma coleção de histórias interligadas que funcionam como uma autópsia detalhada de indivíduos que habitam as margens do desejo, da aceitação social e da própria sanidade. O que Tony Tulathimutte constrói é um ecossistema de personagens que são, sem eufemismos, perdedores monumentais. Eles são os ressentidos, os viciados em redes sociais, os homens que se dizem feministas para camuflar a própria amargura e as mulheres que transformam o desprezo alheio em uma identidade de martírio privado.

A obra se abre com a trajetória de um sujeito que se autointitula um aliado das mulheres. Ele leu todos os textos teóricos certos e frequenta marchas progressistas, mas sua motivação é puramente transacional: ele acredita que a decência política deveria ser recompensada com sexo. Quando o mundo não entrega o prêmio esperado, o personagem apodrece de dentro para fora. É uma análise contundente de como a ideologia pode ser sequestrada pelo ego ferido. Tulathimutte não poupa ninguém, nem mesmo Alison, uma mulher que desenvolve uma obsessão doentia por um antigo caso e acaba adotando um corvo como única companhia, ou Kant, um homem que gasta pequenas fortunas para realizar fantasias sexuais que existem apenas no limite do impossível e do grotesco.

O estilo de Tulathimutte é preciso, lembrando o vigor de quem observa o mundo através de uma lente de aumento que revela todos os poros dilatados e as intenções mesquinhas. O texto flui com a agilidade de um feed de notícias infinito, mas possui a densidade de um tratado sobre a miséria humana. Há uma inteligência perversa em como ele mimetiza a linguagem da internet, os fóruns de discussão e as interações estéreis de aplicativos de relacionamento. Ele entende que a vida contemporânea é mediada por telas que, longe de conectarem, servem como amplificadores para o desespero individual.

O conceito de alteridade (o reconhecimento do outro como um ser distinto e independente) é o eixo central que sustenta o colapso dessas figuras. Todos em “Rejeição” não conseguem enxergar o próximo além de sua utilidade ou de sua capacidade de validar uma ferida existencial. Para esses personagens, o outro é apenas um obstáculo, um lembrete de suas próprias carências ou a causa dos seus fracassos. Eles estão tão mergulhados na própria subjetividade que a existência de uma vontade alheia lhes parece uma agressão pessoal. É uma leitura que incomoda justamente por ser tão reconhecível; não há nada de místico ou interessante na dor que Tulathimutte descreve. É a dor comum da pele que não é tocada, do celular que não vibra e do intelecto que se torna uma jaula. Todos nascemos condenados ao corpo que tivemos a sorte ou o azar de habitar, e não ser desejado é talvez um dos maiores castigos da vida.

A certa altura, a prosa atinge um nível de refinamento que evoca os grandes observadores da condição urbana, mas com uma dose de cinismo que é puramente atual. Em certo ponto, a obra se volta para si mesma em um gesto metalinguístico, apresentando uma carta de rejeição editorial que questiona a própria validade do que acabamos de ler. É um movimento audacioso que desarma o leitor e solidifica a autoridade do autor sobre o tema.

“Rejeição” é uma conquista rara. Consegue ser engraçado no sentido mais cruel da palavra, ao mesmo tempo em que oferece um diagnóstico sombrio sobre como as redes sociais e as políticas de identidade podem ser usadas como ferramentas de isolamento radical. O livro termina por provar que a vulnerabilidade é um território perigoso, onde a exposição e a destruição muitas vezes caminham de mãos dadas. É um material bruto, lapidado com uma sofisticação literária que justifica cada uma de suas páginas. Ao fechar o volume, fica a sensação de que fomos testemunhas de algo genuíno: um retrato sem filtros de uma geração que esqueceu como se conectar sem o intermédio de uma interface, e que agora precisa aprender a lidar com o silêncio ensurdecedor que vem depois do bloqueio.


Nota:

Avaliação: 5 de 5.

Deixe uma resposta

Comments (

0

)

Descubra mais sobre Românticos Radicais

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading