
Após a morte do pai, Didier Eribon retorna a Reims, a cidade operária que ele tão obstinadamente deixou para trás. O reencontro com a mãe e com as ruínas de uma vida que ele julgava superada não é apenas um luto familiar; é o catalisador de uma impiedosa arqueologia de si mesmo e de uma classe social. Aqui, o intelectual de sucesso confronta o garoto humilde, a vergonha visceral das origens, e o desconforto quase culpado de ter “escapado”. Eribon desnuda a complexa teia de sentimentos – do amor filial à rejeição sutil, da incompreensão mútua ao abismo criado pela ascensão social.
Mas “Retorno a Reims” é muito mais que uma memória de classe. É também o doloroso acerto de contas com o silêncio em torno de sua homossexualidade na juventude, um segredo familiar que espelha as normatividades e repressões de uma época e de um meio. No coração desta obra pulsante, Eribon investiga a grande traição – ou transformação – política de sua classe. Como o proletariado que um dia ergueu a bandeira comunista, tão familiar em sua casa, virou as costas para a esquerda para abraçar o discurso da extrema-direita, da Frente Nacional a Macron?
Com uma prosa afiada e uma análise sociológica penetrante, Eribon desvenda como o pessoal e o político se entrelaçam inextrincavelmente. É um convite incômodo e urgente para refletirmos sobre as fendas sociais que nos definem, os estigmas invisíveis que carregamos e as narrativas que construímos para justificar nossos caminhos – e as escolhas políticas de quem deixamos para trás. Uma obra essencial para entender não apenas o autor, mas a França contemporânea e, por extensão, as profundas transformações identitárias e políticas que ecoam em tantas sociedades.
“Retorno a Reims” está à venda no site da Âyiné.








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