Não conhecemos o nome do protagonista de “Extensão do domínio da luta”, mas ninguém parece se importar. O homem tem trinta anos, é um executivo médio, analista-programador em uma empresa de TI prestadora de serviço do Ministério da Agricultura. Seu salário líquido chega a 2,5 salários mínimos, o que lhe dá uma condição de vida confortável para a época. Apesar dessa integração social, ele não atrai as mulheres e segue sem ter nenhuma relação sexual desde o término com a ex-companheira. Desprovido de beleza e encanto, sujeito a frequentes excessos depressivos, ele dificilmente corresponde ao que as mulheres buscam prioritariamente no mercado do sexo ou satisfação narcísica. Este homem é um desgraçado órfão do patriarcado.
Obra de estreia do escritor francês Michel Houellebecq, “Extensão do domínio da luta” explora o ressentimento e a queda do homem ocidental após a revolução sexual das mulheres. O seu título se refere ao aumento da concorrência em um mercado competitivo: antes, era quase que uma garantia de que todos os homens teriam uma mulher, mas agora elas possuem escolhas e para conquistá-las é preciso atributos que não são todos os homens que possuem.
Esse ressentimento de homens incapazes de fazerem com que mulheres queiram se relacionar com eles traz um sentimento de perda de algo que eles acreditam merecer, de algo que as próprias mulheres devem a eles. Não correspondidos, acabam tendo comportamentos violentos, impulsos de vingança e uma imagem maligna dessas mulheres que eles tanto queriam ter. “Extensão do domínio da luta”, lançado em 1994, é como uma premonição do surgimento de indivíduos que posteriormente seriam chamados de incels.
Com o poder de escolha de ambos os lados e mulheres agora reproduzindo comportamentos que antes eram exclusivos dos homens, o sexo e o amor acabam se tornando um mercado, onde nos esforçamos para atrair um parceiro, utilizando de dinheiro, beleza física ou até mesmo capacidade intelectual. O protagonista narra não somente a sua história, mas também de seus conhecidos, todos em busca de um pouco de amor, de sexo, sonhando em ser um pouco desejados.
“Extensão do domínio da luta” inaugura elementos que se repetirão nos outros livros de Michel Houellebecq, todos apontando para a queda do homem ocidental, extremamente sozinho e mergulhado no niilismo, onde nem a própria cama é mais um refúgio.
“Extensão do domínio da luta”, Michel Houellebecq
Editora Sulina





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