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Filme: “4”, Ilya Khrzhanovskiy

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Tudo começa, de forma enganosamente simples, num bar de Moscovo. Três estranhos partilham uma mesa e, impulsionados pela vodka e pelo anonimato urbano, começam a tecer elaboradas mentiras sobre as suas vidas. Um afinador de pianos alega, com a maior naturalidade, que o seu verdadeiro trabalho é ajustar geneticamente os líderes mundiais. Um vendedor de carne descreve o seu negócio de fornecimento de clones humanos perfeitamente embalados. Uma prostituta reinventa-se como uma burocrata de uma agência futurista. A partir deste prólogo surrealista, tecido pelo aclamado e controverso escritor Vladimir Sorokin, o filme de estreia de Ilya Khrzhanovskiy estilhaça-se, abandonando a segurança do bar para seguir as suas personagens de volta à desconcertante realidade que tentavam escapar.

Enquanto um dos homens se perde numa rotina cinzenta que desmente a sua grandiosa fantasia, é a jornada da mulher que lança o filme num território verdadeiramente alucinatório. Ao receber a notícia da morte de uma irmã, ela viaja para a sua aldeia natal, um lugar esquecido pelo tempo no interior da Rússia. O que encontra é menos uma comunidade e mais um enclave primal, habitado por um coro de velhas enrugadas, as “babushkas”, que parecem saídas de um folclore pagão. Elas envolvem-na numa série de rituais bizarros e grotescos, que incluem a criação de bonecas a partir de pão mastigado e uma cerimónia fúnebre que desafia qualquer lógica ou decoro.

Khrzhanovskiy filma este mergulho na loucura com um olhar clínico e implacável, transformando o que poderia ser um drama rural num estudo antropológico de um mundo em colapso. O número “4”, que assombra o filme como um enigma, representa as quatro irmãs da personagem, mas também ecoa a fragmentação de uma nação que perdeu a sua narrativa unificadora. Sem oferecer conforto ou explicação, ‘4’ funciona como um diagnóstico febril da alma pós-soviética, onde a fronteira entre a civilização e a barbárie, a verdade e a fabricação, se dissolveu por completo, deixando para trás apenas o eco de um grito ancestral. Uma obra audaciosa e desconcertante que já antecipava a escala e a controvérsia do futuro e monumental projeto do realizador, DAU.

“4” está disponível no MUBI.

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Tudo começa, de forma enganosamente simples, num bar de Moscovo. Três estranhos partilham uma mesa e, impulsionados pela vodka e pelo anonimato urbano, começam a tecer elaboradas mentiras sobre as suas vidas. Um afinador de pianos alega, com a maior naturalidade, que o seu verdadeiro trabalho é ajustar geneticamente os líderes mundiais. Um vendedor de carne descreve o seu negócio de fornecimento de clones humanos perfeitamente embalados. Uma prostituta reinventa-se como uma burocrata de uma agência futurista. A partir deste prólogo surrealista, tecido pelo aclamado e controverso escritor Vladimir Sorokin, o filme de estreia de Ilya Khrzhanovskiy estilhaça-se, abandonando a segurança do bar para seguir as suas personagens de volta à desconcertante realidade que tentavam escapar.

Enquanto um dos homens se perde numa rotina cinzenta que desmente a sua grandiosa fantasia, é a jornada da mulher que lança o filme num território verdadeiramente alucinatório. Ao receber a notícia da morte de uma irmã, ela viaja para a sua aldeia natal, um lugar esquecido pelo tempo no interior da Rússia. O que encontra é menos uma comunidade e mais um enclave primal, habitado por um coro de velhas enrugadas, as “babushkas”, que parecem saídas de um folclore pagão. Elas envolvem-na numa série de rituais bizarros e grotescos, que incluem a criação de bonecas a partir de pão mastigado e uma cerimónia fúnebre que desafia qualquer lógica ou decoro.

Khrzhanovskiy filma este mergulho na loucura com um olhar clínico e implacável, transformando o que poderia ser um drama rural num estudo antropológico de um mundo em colapso. O número “4”, que assombra o filme como um enigma, representa as quatro irmãs da personagem, mas também ecoa a fragmentação de uma nação que perdeu a sua narrativa unificadora. Sem oferecer conforto ou explicação, ‘4’ funciona como um diagnóstico febril da alma pós-soviética, onde a fronteira entre a civilização e a barbárie, a verdade e a fabricação, se dissolveu por completo, deixando para trás apenas o eco de um grito ancestral. Uma obra audaciosa e desconcertante que já antecipava a escala e a controvérsia do futuro e monumental projeto do realizador, DAU.

“4” está disponível no MUBI.

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