Num dia perfeitamente banal, um homem comum, anónimo nos seus gestos e no seu fato cinzento, recebe um mapa misterioso nas ruas labirínticas de Praga. A sua curiosidade, mais por tédio do que por bravura, leva-o a um teatro decrépito e abandonado que se revela uma armadilha cénica. Ao encontrar um camarim e um roteiro, ele é inadvertidamente escalado para o papel mais perigoso da história da literatura: Fausto.
O que se segue não é uma reencenação fiel da lenda, mas uma descida alucinante a um universo onde a realidade se desfaz a cada mudança de cena. Jan Švankmajer transforma a cidade de Praga num palco surrealista, onde o nosso protagonista relutante interage com demónios de argila que se moldam e desfazem, anjos de madeira com asas rangentes e um Mefistófeles que é tanto um burocrata do submundo quanto uma marioneta em tamanho real, cujos fios são tão visíveis quanto os do próprio Fausto.
A negociação pela alma torna-se um espetáculo grotesco e absurdamente cómico, uma transação realizada no meio de maquinaria teatral enferrujada e efeitos especiais artesanais. O filme questiona constantemente quem está no controlo: o homem que lê as falas, o demónio que oferece o contrato, ou o próprio mecanismo do teatro, uma força antiga que exige que a peça continue, noite após noite, com um novo ator para cada danação. Misturando live-action com um stop-motion visceral e tátil, Švankmajer cria um ensaio provocador sobre o livre-arbítrio, sugerindo que talvez sejamos todos apenas atores a seguir um guião que encontrámos por acaso, seduzidos pela promessa de um papel principal, sem nunca lermos as letras pequenas do contrato.
“Fausto” está disponível no MUBI.









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