Em ‘Jabberwocky’, Jan Švankmajer não adapta o poema de Lewis Carroll, mas o invoca como um feitiço que anima o conteúdo de um velho armário de madeira. A partir do momento em que as portas se abrem, somos introduzidos num quarto de criança onde a lógica do mundo adulto se dissolve. Um fato de marinheiro ganha vida própria, movendo-se autonomamente pelo espaço como um corpo sem órgão, uma casca de infância em busca de propósito. A recitação do poema ao fundo não serve como narrativa, mas como uma trilha sonora ritualística que pontua uma escalada de interações cada vez mais bizarras e agressivas entre brinquedos, frutas, facas e bonecas. A ação centraliza-se na destruição sistemática de uma boneca por outras, num balé de sadismo mecânico que culmina com o seu cérebro, feito de serragem, a ser devorado.
O curta de 1971, cujo título original é Žvahlav aneb šatičky slaměného Huberta, investiga a natureza inquietante do familiar. Švankmajer articula uma visão da infância não como um estágio de pureza a ser perdido, mas como um campo de forças em constante transformação, um território de pulsões primitivas e curiosidade violenta. A animação em stop-motion, com sua textura tátil e movimentos bruscos, sublinha a materialidade dos objetos, conferindo peso e uma estranha agência a cada um deles. O som de facas a cortar maçãs ou o ranger das articulações de um brinquedo são tão protagonistas quanto as imagens, construindo uma atmosfera de perigo iminente no ambiente mais doméstico possível. É um estudo sobre a vida secreta dos objetos e a tirania inerente aos jogos infantis, onde as regras são arbitrárias e a crueldade pode emergir sem aviso.
Filmado durante o período da Normalização na Tchecoslováquia, o curta permite uma leitura sobre a dinâmica do poder e da opressão. A destruição coreografada da boneca por um coletivo de brinquedos menores reflete a lógica interna do autoritarismo, onde a individualidade é desmontada peça por peça. No entanto, a obra de Švankmajer opera para além de uma única alegoria política. O filme é, fundamentalmente, uma exploração surrealista da psique, onde o nonsense de Carroll encontra um correspondente visual perfeito. A entrada final de um gato preto, um ser vivo e real que intervém no universo animado, quebra o ciclo de violência artificial com um ato de instinto biológico, sugerindo que a natureza, em sua indiferença, é a força final. Uma obra que não busca encantar, mas sim perturbar a ordem estabelecida dos objetos e das memórias.




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