Em Instinto, Halina Reijn abre uma ferida. Uma incisão cirúrgica que dissecará, sem anestesia, as camadas mais incômodas do desejo, do poder e da violência que habitam relações humanas. A trama gira em torno de Nicoline (Carice van Houten), uma psicóloga prisional que avalia a possibilidade de reintegração de Idris (Marwan Kenzari), um estuprador serial prestes a conquistar liberdade condicional. O que começa como uma avaliação profissional transforma-se em um jogo de espelhos: Nicoline, observadora por ofício, vê-se refletida nas fissuras da psique de Idris, enquanto ele devolve seu olhar com a precisão de quem reconhece, no controle dela, uma fragilidade semelhante à sua própria fúria.
A narrativa se constrói em tons de cinza. Nicoline, com sua postura impecável e roupas que camuflam mais do que revelam, parece personificar a racionalidade institucional. Seus colegas acreditam na redenção de Idris; ela, não. Mas sua certeza não nasce apenas de um diagnóstico clínico. Há algo de visceral, quase animal, na forma como ela o provoca, como se buscasse, nas entrelinhas de suas sessões, uma confirmação não apenas de sua periculosidade, mas de uma verdade que ela mesma evita encarar. Idris, por sua vez, não é um monstro unidimensional. Seu carisma é uma faca de dois gumes: seduz e corta, expondo a vulnerabilidade de quem o julga.
Reijn recusa-se a simplificar a dinâmica entre os dois como uma mera atração proibida. Em vez disso, ela tece uma coreografia de voyeurismo mútuo. Nicoline observa Idris como um objeto de estudo, mas a câmera de Jasper Wolf — sempre próxima, quase intrusiva — revela que seu interesse vai além do profissional. Há uma cumplicidade perversa em como ela se inclina para ouvi-lo, como se cada palavra dele ecoasse perguntas que ela não ousa formular. Idris, por outro lado, observa Nicoline com a curiosidade de um predador que fareja medo disfarçado de autoridade. A fotografia, fria e claustrofóbica, amplifica essa tensão: planos fechados nos rostos, espaços vazios que ressaltam o isolamento de ambos, cores pálidas que sugerem um mundo desprovido de calor humano.
O filme questiona a ilusão de neutralidade. Nicoline acredita em seu próprio distanciamento, mas cada interação com Idris a arrasta para mais perto de suas próprias sombras. Sua relação com a mãe, envolta em uma intimidade perturbadora, e seu affair casual com um colega revelam uma mulher que, mesmo consciente de seus mecanismos de defesa, não consegue evitar a autossabotagem. Van Houten interpreta essa contradição com uma intensidade contida: seus olhos azuis, tão penetrantes quanto vulneráveis, transmitem uma guerra interna entre o intelecto e o instinto. Kenzari, por sua vez, domina a tela com uma presença magnética e volátil — seu sorriso é ao mesmo tempo um convite e uma ameaça.
Aqui, o voyeurismo é estrutura. Reijn utiliza o cinema como um dispositivo de espelhamento: assim como Nicoline e Idris se observam, o espectador é colocado na posição de voyeur, confrontado com a ambiguidade de suas próprias reações. É desconfortável torcer por Nicoline? É possível sentir empatia por Idris? O filme amplifica as perguntas. Em uma cena crucial, Nicoline assiste a um documentário sobre predadores na natureza — a câmera se demora em suas feições, capturando um misto de fascínio e horror. Não há moralismo aqui, apenas a constatação crua de que o desejo e a violência podem ser faces da mesma moeda.
Instinto evita didatismos. Não há discursos sobre culpa ou redenção, nem maniqueísmos. A violência sexual é tratada com um realismo que incomoda, mas nunca explora. Reijn prefere nos fazer testemunhas, não juízes. Em seu silêncio eloquente, o filme expõe a hipocrisia de sistemas que acreditam domesticar instintos através de grades e relatórios psicológicos. Afinal, o que separa o civilizado do primitivo? Nicoline, em sua queda gradual, personifica essa pergunta. Sua transformação — de avaliadora a participante do jogo — não é uma falha de caráter, mas um lembrete de que nenhum de nós está imune ao abismo que insiste em espiar.
Ao final, restam fragmentos de identidades despedaçadas. Instinto não conclui, apenas suspende a respiração. E nessa suspensão, entre o que é dito e o que é encenado, reside sua força: a de nos lembrar que, por trás de cada máscara de controle, há um ser humano lutando para não se reconhecer no próprio reflexo.
“Instinto”, Halina Reijn
Disponível no MUBI




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