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BDSM vira sessão de terapia em “Babygirl”

Halina Reijn entrega um conto de fadas corporativo onde a submissão é tão inofensiva quanto um desenho animado da Disney


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Há algo quase comovente em assistir a um filme que se vende como uma incursão ousada no universo do BDSM, mas termina tão ameaçador quanto uma xícara de chá de camomila. Babygirl, de Halina Reijn, é esse paradoxo: uma narrativa que promete explorar os abismos do desejo e do poder, mas se contenta em arranhar a superfície com a delicadeza de uma unha recém-lixada. Nicole Kidman interpreta Romy, uma CEO de uma empresa de robótica cuja vida impecável — marido charmoso (Antonio Banderas, reduzido a um adereço de sofisticação barata), filhos rebeldes-but-cute, e apartamentos que parecem cenários de revista — esconde um segredo: ela precisa fugir para o banheiro após o sexo conjugal para finalizar o serviço sozinha, diante de um laptop. É aí que entra Samuel (Harris Dickinson), um estagiário cujo único talento discernível é domar cães agressivos e projetar uma aura de confiança que, na vida real, seria confundida com falta de educação.

A premissa é clássica: mulher poderosa descobre prazer na submissão. Mas Reijn, em vez de mergulhar nas complexidades psicológicas ou políticas dessa dinâmica, prefere brincar de make-believe. Samuel não é um dominador; é um garoto perdido que, em vez de chicotes ou comandos elaborados, oferece a Romy a emocionante oportunidade de… ficar de pé no canto do quarto. Ou lamber leite de uma tigela. Sim, leite. Em um dos hotéis mais deprimentes já retratados no cinema, onde até os lençóis parecem carregar o peso existencial de décadas de encontros clandestinos medíocres. O ápice da transgressão aqui não está nas algemas, mas na coragem de Romy em ignorar protocolos de higiene básica.

O filme oscila entre tentar ser uma crítica ácida à repressão sexual feminina e um conto de redenção soft para mulheres que descobrem, aos 50 anos, que gostam de ser chamadas de “babygirl”. Kidman, é claro, eleva o material com sua presença magnética — há cenas em que seu rosto, imobilizado pelo Botox, parece conter mais dramaticidade do que todo o roteiro. Mas mesmo ela não salva a narrativa de sua própria timidez. Enquanto Eyes Wide Shut, citado como referência, mergulhava nas sombras do desejo e do ritual, Babygirl parece mais interessado em decorar a jaula do que em abri-la. Romy nunca perde o controle de verdade; seu casamento permanece intacto, seu cargo de CEO não é ameaçado, e até o estagiário, supostamente perigoso, tem a profundidade emocional de um meme do TikTok.

A ironia mais saborosa, porém, está na forma como o filme aborda o envelhecimento feminino. Romy é constantemente lembrada de sua idade — pela filha que zomba de suas injeções estéticas, pelo amante que a reduz a uma “velha” em crise —, mas a resposta da narrativa não é uma revolta, e sim uma resignação elegante. Ela não desafia o sistema; adapta-se a ele, como um robô de seu próprio empreendimento. Seu ato mais corajoso não é se submeter a Samuel, mas colocar um executivo misógino em seu devido lugar, em uma cena que parece inserida de outro filme, muito mais interessante.

Babygirl poderia ser um comentário mordaz sobre a performatividade do poder na era corporativa, mas prefere ser um conto de fadas para mulheres que desejam se sentir transgressoras sem sair da zona de conforto. É um filme que joga com a ideia de risco, mas tem medo de arranhar os saltos altos da protagonista. E talvez seja essa a piada final: em um mundo onde até o BDSM é pasteurizado, a verdadeira subversão estaria em assistir a tudo isso com as crianças na sala, rindo da inocência de quem ainda acredita que poder e prazer cabem em caixinhas tão bem decoradas.


“Babygirl”, Halina Reijn

Nos cinemas

Avaliação: 1 de 5.


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