A paisagem sueca em The Here After não é cenário, mas personagem. Um vento cortante varre campos abertos, casas isoladas e salas de aula vazias, carregando consigo o peso de um segredo que todos conhecem, mas ninguém nomeia. Magnus von Horn, em sua estreia cinematográfica, não constrói um drama sobre culpa, e sim uma cartografia do silêncio — aquele que precede e sucede a violência, moldando corpos e relações como uma faca enterrada na neve.
John (Ulrik Munther) volta para casa após cumprir pena em uma instituição não nomeada. Seu crime, revelado apenas na metade do filme, é tratado como um fantasma já familiar à comunidade rural: os olhares hostis no supermercado, os murros nos corredores da escola, o pai (Mats Blomgren) que lhe ensina a atirar em animais doentes como se a morte fosse rotina. A câmera de Lukasz Zal, frequentemente estacionada atrás de portas ou vidros embaçados, observa John como um espécime sob vidro — um jovem que aprendeu a engolir o próprio choro, mas cujas mãos tremem ao segurar um copo de leite.
A genialidade de von Horn está na inversão sutil de expectativas. Enquanto filmes sobre criminosos juvenis buscam explicações psicológicas ou redenção melodramática, The Here After se recusa a justificar ou condenar. John não é um monstro, tampouco uma vítima. Sua presença desconstrói a noção simplista de “arrependimento”: ele não chora, não se explica, não pede perdão. A cena em que uma colega de escola, Malin (Loa Ek), pergunta sobre seu crime é reveladora não pelo que é dito, mas pelo que permanece suspenso. Ele responde com um silêncio que poderia ser vergonha, indiferença ou a incapacidade de articular o inarticulável. A câmera fixa em seu rosto — pálido, quase translúcido — não entrega respostas, apenas a textura de uma dor que virou cicatriz.
A relação com o pai é um dueto de gestos truncados. Em cenas de jantar ou lições de direção, a câmera os enquadra em planos separados, divididos por portas ou sombras, como se compartilhassem a mesma casa, mas não o mesmo oxigênio. O azul dominante na fotografia não é só metáfora do frio emocional; é a cor de um luto que não encontra ritual. Até o irmão mais novo, Filip (Alexander Nordgren), parece entender que aquele silêncio é um idioma familiar — um dialeto herdado de gerações de homens que aprenderam a confundir dureza com sobrevivência.
A violência aqui não explode em gritos ou tiros. Ela se infiltra nas entrelinhas: no modo como John é empurrado contra um armário enquanto outros alunos riem, na mulher que o ataca no mercado como se seu corpo fosse um manifesto coletivo, no pai que insiste em normalizar o anormal. O clímax, quando chega, não liberta — congela. Uma sequência noturna, filmada através do para-brisa de um carro, reduz a ação a vultos e sons abafados, como se o filme se recusasse a espetacularizar até a própria catarse.
Há ecos de Haneke na contenção formal, mas von Horn substitui o cálculo cerebral por uma crueza quase orgânica. As longas tomadas não são exercícios de estilo, mas respirações. Cada plano demorado nos força a habitar o tédio e a tensão de John, a sentir o peso do tempo que não cura, apenas carrega. O final, ambíguo e desprovido de conclusão, não é sobre falta de respostas — é sobre perguntas que nunca foram feitas.
The Here After não quer nossa empatia, nem nosso julgamento. Quer nosso incômodo. Ao nos negar a catarse do perdão ou da condenação, o filme nos deixa presos no mesmo limbo que seu protagonista: um lugar onde o passado não é passado, e o futuro é uma estrada coberta de gelo negro. Como John, saímos do cinema carregando uma culpa que não é nossa, mas que, de algum modo, nos habita.
“The Here After”, Magnus von Horn
Disponível no MUBI




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