No centro de Paraty, no Rio de Janeiro, na manhã nublada deste sábado, todos os olhares convergiram para a presença magnética da escritora mineira Conceição Evaristo. O salão designado para Evaristo revelou-se insuficiente para abrigar o público ávido. Como resultado, os demais recintos da casa foram ocupados, e caixas de som foram estrategicamente instaladas – se não fosse possível ver a autora, ao menos seria possível absorver suas narrativas de outra forma.
Minutos antes do evento na Casa Estante Virtual às 10h10, uma fila de aproximadamente 300 metros serpenteava pelas ruas de pedra sabão, roubando a cena de qualquer outra atração. Ao perceber a magnitude da expectativa pela romancista de 76 anos, um leitor desistiu, comentando que a fila rivalizava com as dos shows da cantora americana Taylor Swift no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Nas imediações, a rua foi tomada por admiradores esticando o pescoço para captar suas palavras através das janelas. “Ela merecia um espaço mais amplo para falar”, opinou a professora aposentada Maria Antonia Freitas da Silva, 77 anos, que viajou de Salvador para Paraty com o propósito principal de testemunhar Evaristo.
Durante sua fala, Evaristo estabeleceu conexões entre o passado e o presente da cultura negra no Brasil. “Emicida quebra a tradição ao dizer ‘é nóis’, o que é considerado um erro pela norma culta. Ele incomoda os puristas, assim como Carolina de Jesus, que criou neologismos em seus livros. Por que Guimarães Rosa podia e Carolina não?”, provocou.
Na fila de autógrafos, a professora e poetisa Benilda Amorim, que acompanha atentamente Evaristo desde 2017, afirmou que “Insubmissas Lágrimas de Mulheres” é seu livro preferido da autora. Vinda de Salvador para participar dos debates da Flip, Amorim planejava assistir ao debate com Evaristo e a romancista Eliana Alves Cruz na Casa da Utopia às 17h.
A espera, conforme atestavam os aplausos efusivos, revelou-se recompensadora. Evaristo conquistou o público ao anunciar que estava preparando um rap. “Alguns rappers, incluindo Emicida, mostraram interesse em gravar”, revelou ela à reportagem após a palestra. “O título será ‘Rap da Experiência’.”
Evaristo também abordou sua recente conquista do Prêmio Juca Pato de intelectual do ano. “Não posso ser uma exceção. No próximo ano, os intelectuais brancos permanecerão quietos em seus lugares, premiando novamente uma negra ou um negro”, desafiou.
Autora de romances marcantes, como “Ponciá Vicêncio” há duas décadas e “Canção para Ninar Menino Grande” do ano passado, além de volumes de contos como “Olhos d’Água” de 2014, Evaristo refletiu sobre a presença da morte em sua literatura. “Tenho a fama de ser assassina; muitos dos meus personagens encontram a morte. Mas é uma morte que clama pela vida. A vida continua”, afirmou. “Precisamos compreender a morte de maneira diferente.”
No sábado, a autora mineira também participaria de um diálogo com a jornalista Luciana Barreto na Casa Publish News às 14h30. Já no domingo, último dia da Flip, às 10h, Evaristo estaria no Sesc Santa Rita para comentar o livro “Macabéa, Flor de Mulungu”, reinterpretando a personagem de Clarice Lispector.









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