Em um exercício cinematográfico que dissolve as fronteiras entre a galeria de arte e a sala de cinema, o projeto ‘Manifesto’ de Julian Rosefeldt se apresenta como uma colagem provocadora de ideias radicais. A premissa é, ao mesmo tempo, simples e audaciosa: Cate Blanchett, em uma demonstração de versatilidade singular, encarna treze personagens distintos do nosso cotidiano. Uma operária de incineradora, uma corretora da bolsa, uma professora primária, uma mãe de família conservadora, um morador de rua. Cada uma dessas figuras, imersa em seu ambiente particular e visualmente estilizado, declama trechos de manifestos artísticos e políticos que marcaram o século XX, do Futurismo ao Dadaísmo, passando pelo Situacionismo e pelo Dogma 95.
A força da obra não reside na simples recitação de textos históricos, mas na calculada dissonância entre o que é dito e quem o diz, e onde. A paixão inflamada dos futuristas por velocidade e guerra é proferida como um discurso fúnebre sóbrio. Os princípios de pureza cinematográfica do Dogma 95 são ensinados a crianças em uma sala de aula, transformando um chamado à revolução fílmica em uma lição de moral comportada. Rosefeldt orquestra um deslocamento conceitual que força o espectador a reavaliar tanto a potência original dessas palavras quanto o seu lugar, ou a falta dele, no mundo contemporâneo. A presença de Cate Blanchett, desdobrada em treze avatares distintos, funciona como o fio condutor que unifica a colagem, emprestando um corpo e uma voz humana a ideologias que, de outra forma, poderiam permanecer como documentos poeirentos em uma prateleira.
O filme, que teve origem como uma instalação de vídeo em treze telas, retém essa qualidade fragmentada em sua versão linear para o cinema. A montagem intercala os monólogos, criando um diálogo inesperado entre movimentos artísticos que, em suas épocas, eram adversários. O resultado é uma sinfonia de vozes que buscam a ruptura, a pureza e a destruição da ordem vigente. Ao colocar essas palavras incendiárias em cenários banais, ‘Manifesto’ investiga a vitalidade e a eventual banalização das utopias. O que acontece quando a retórica da vanguarda é absorvida pela rotina diária? A convicção apaixonada de artistas como Claes Oldenburg, Yvonne Rainer ou Lars von Trier soa profética, ingênua ou simplesmente deslocada quando aplicada a uma coreografia, a uma notícia de telejornal ou a uma oração antes do jantar?
Essa estratégia de justaposição pode ser entendida através do conceito surrealista de dépaysement, o ato de retirar um objeto de seu contexto familiar para revelar novas perspectivas. Rosefeldt aplica essa técnica não a objetos, mas a textos fundamentais da história da arte. A obra não oferece um julgamento sobre a validade atual desses manifestos. Em vez disso, ela opera como um campo de testes, expondo a tensão entre a ambição artística do passado e a realidade pragmática do presente. A fotografia meticulosa e a direção de arte impecável criam mundos visualmente coesos que entram em choque direto com a anarquia verbal dos textos, gerando uma experiência intelectual e sensorial que é ao mesmo tempo irônica, melancólica e profundamente estimulante. É um exame sobre como as grandes ideias sobrevivem, se transformam ou se perdem quando confrontadas com o passar do tempo.




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