A arte, outrora um campo de contemplação e transcendência, hoje é um palco onde corpo e obra se misturam em uma performance contínua para um público sedento por imagens rápidas, rostos bonitos e corpos atraentes. A questão que emerge é brutal: ser belo agora é uma exigência para ser reconhecido como artista? Essa pergunta ecoa no vazio de um mercado saturado por algoritmos que parecem privilegiar não a profundidade da obra, mas a superfície do criador.
É inegável que as redes sociais democratizaram o acesso a alguns artistas que antes permaneceriam obscuros. Mas qual é o preço dessa exposição? Uma nova tirania surge: a de parecer “algoritmicamente agradável”. O público não descobre o trabalho — descobre o artista, sua pele, seu sorriso, sua pose. O criador, em muitos casos, tornou-se um avatar do próprio trabalho, e isso é um jogo perigoso. Afinal, o que acontece com a arte quando seu criador se torna o produto mais desejado?
Os exemplos são abundantes. Artistas que mesclam a revelação de suas obras com trajes sugestivos ou performances corporais atraem milhões de seguidores, enquanto os puristas, que insistem em deixar a arte falar por si, veem-se cada vez mais marginalizados. A estética pessoal parece ter superado a estética da criação. E, ainda que isso possa parecer uma oportunidade para alguns, o impacto dessa lógica é devastador: ela transforma a arte em um subproduto do mercado da vaidade.
A jovem artista multimídia Yoona, ao adotar estratégias como selfies de biquíni para atrair atenção, não está apenas promovendo sua obra — está capitulando a uma dinâmica de mercado que reduz sua prática artística à sua capacidade de atrair olhares. O que deveria ser um grito de autenticidade vira um sussurro de submissão. A provocação que ela enfrenta é amarga: sua arte importa menos que a curva de sua cintura.
Há aqui uma contradição gritante: enquanto o mundo da arte tradicional ainda resiste em conceder espaço às mulheres — menos de 10% das obras vendidas em leilões globais são assinadas por elas —, as redes sociais as colocam em um pedestal, desde que estejam dispostas a se objetificar. A promessa de democratização, então, revela-se um engodo: ao invés de nivelar as diferenças, cria novas barreiras, mais sutis, mas igualmente cruéis.
Dylan, um pintor de Nova York, aponta para o abismo criado por essa nova lógica. A arte, segundo ele, deveria ser serviço, expressão, comunicação intencional. Mas o que vemos é o contrário: uma corrida para atender ao apetite insaciável do público por consumo imediato e descartável. Ser “vendável” tornou-se mais importante do que ser genuíno. E, nesse contexto, o artista é duplamente traído: pela plataforma que o transforma em produto e pela instituição artística que o desdenha por isso.
Paul Hill, galerista e fundador da Strada, alerta que as redes sociais dificilmente produzem artistas que transcendem para o mundo das belas-artes. O TikTok e o Instagram podem ser trampolins para a fama, mas não para o reconhecimento sério. A promessa de ascensão através de seguidores e curtidas é um beco sem saída. No entanto, para os desprivilegiados, parece ser a única alternativa.
A realidade que emerge é desoladora. O corpo, em sua capacidade de seduzir, tornou-se mais importante que a mente que o habita. Aqueles que não atendem aos padrões estéticos vigentes estão condenados à invisibilidade. A arte, que deveria ser refúgio do superficial, é agora um espelho do mundo que a cerca: uma arena onde vence o mais atraente, não o mais talentoso.
O que perdemos nesse processo? Perdemos a profundidade, a ousadia, o incômodo. A arte transformada em espetáculo do corpo é confortável, fácil de consumir. Mas a grande arte nunca foi sobre conforto. É sobre rasgar o véu, desafiar o olhar, provocar a alma. Na busca por ser amados, muitos artistas hoje se tornam agradáveis — e, ao fazer isso, traem a essência do que é ser artista.
No final, resta a pergunta: a arte pode sobreviver a um mundo onde o artista deve ser bonito para ser visto? Se a resposta for não, talvez estejamos testemunhando não uma nova era de democratização, mas o funeral da arte como a conhecemos. E, nesse funeral, o luto será silencioso — abafado pelo som de cliques, flashes e algoritmos.
Baseado no texto original da Dazed.









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