O episódio envolvendo Fernanda Torres em um esquete de A Comédia da Vida Privada não apenas configura blackface por si só — uma prática racista onde pessoas brancas escurecem a pele para interpretar estereótipos de pessoas negras —, mas também reforça o racismo estrutural ao usá-lo como recurso cômico.
No esquete, Torres interpreta tanto uma mulher branca quanto uma empregada doméstica negra, papel para o qual escureceu sua pele. Esse uso de maquiagem não foi apenas um disfarce: foi uma escolha narrativa para ridicularizar uma figura negra e subalternizada, reforçando estereótipos historicamente prejudiciais. O humor embutido no esquete se apoia em uma caricatura que desumaniza e reduz a complexidade das vidas e experiências das pessoas negras.
O problema central do blackface está na origem racista dessa prática: criada para escárnio e exclusão, ela sempre foi uma ferramenta de opressão. No contexto de programas de humor, como o exemplo de Fernanda Torres, ela perpetua uma lógica de dominação, utilizando o riso como uma arma de marginalização.
Embora a atriz tenha reconhecido o erro e pedido desculpas, é importante reforçar que, à época, mesmo com a falta de conscientização ampla sobre o tema, movimentos negros já alertavam sobre o racismo em práticas como essa. O reconhecimento público do erro por parte de Torres, embora tardio, não apaga o impacto negativo que o esquete gerou nem a natureza da escolha de colocar uma mulher branca para interpretar, com tons racistas, uma personagem negra.
O racismo não é apenas uma questão de intenção, mas de impacto e perpetuação de desigualdades. E, nesse caso, não foi só a maquiagem que configurou o blackface: foi o conjunto da obra, que utilizou a figura negra como alvo de escárnio. Esse episódio serve como um lembrete de que práticas como essas não têm lugar em nenhuma sociedade que busca justiça racial.









Deixe uma resposta