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O fetiche do diploma e a universidade que esqueceu para que serve

O diploma, no Brasil, nunca foi exatamente sinônimo de conhecimento. Foi sempre, antes de tudo, um documento social. Ele diz menos sobre o que você sabe do que sobre quem você é, ou quem pretende ser


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Há uma passagem em Brás Cubas em que o protagonista descreve o dia em que recebeu seu diploma universitário. A universidade lhe atestou, em pergaminho, uma ciência que ele estava longe de ter. Ele se sentiu, ao mesmo tempo, logrado e orgulhoso. Machado escreveu isso no século XIX. O Brasil não mudou muito.

O diploma, no Brasil, nunca foi exatamente sinônimo de conhecimento. Foi sempre, antes de tudo, um documento social. Ele diz menos sobre o que você sabe do que sobre quem você é, ou quem pretende ser. Lima Barreto entendeu isso tão bem quanto Machado, e os dois passaram boa parte de suas obras zombando de uma sociedade que confundia título com inteligência, credencial com competência. A piada tem mais de cem anos. Continua funcionando.

O problema ganhou uma camada nova com a expansão do ensino superior nas últimas décadas. O Brasil apostou em quantidade: mais universidades, mais cursos, mais mestres, mais doutores. O raciocínio era simples e, em certa medida, compreensível. O resultado, no entanto, foi a produção em escala de títulos que não correspondem necessariamente a formação. O país não tem nenhuma universidade entre as trezentas melhores do mundo. Tem três entre as quinhentas. A maior parte dos pesquisadores brasileiros trabalha em instituições que, pelos padrões internacionais, são instituições comuns.

Isso não é uma acusação às pessoas. É uma descrição de um sistema.

Ortega y Gasset, escrevendo sobre a Espanha dos anos 1930, identificou o tipo humano que esse sistema tende a produzir. Chamou de especialista: alguém que conhece profundamente uma fatia estreita do conhecimento e ignora, com tranquilidade, todo o resto. O problema não é a especialização em si. É que esse especialista, segundo Ortega, “não é um sábio, porque ignora formalmente o que não entra na sua especialidade; mas tampouco é um ignorante, porque é um homem de ciência.” É as duas coisas ao mesmo tempo. E age com a segurança de quem não percebe a contradição.

Numa cultura que confunde título com saber, esse tipo prospera. Ele fala com autoridade dentro do seu campo e com a mesma autoridade fora dele. A universidade, ao se concentrar em formar especialistas e produzir pesquisa, deixou de lado o que Ortega chamava de transmissão de cultura: a formação de pessoas que entendem o mundo de forma mais ampla, que sabem o que não sabem, que têm alguma consciência de seus próprios limites.

Essa missão mais ampla não desapareceu por negligência. Ela foi substituída deliberadamente por outra: a profissionalização e a pesquisa. O raciocínio é que todo professor universitário precisa ter mestrado ou doutorado, que todo departamento precisa produzir artigos, que toda instituição precisa de pesquisadores ativos. O resultado é uma quantidade enorme de produção acadêmica de qualidade discutível, gerada por pessoas que precisam publicar para manter bolsas, cargos e reputações institucionais.

Não é que não haja bons pesquisadores no Brasil. Há, e em número razoável. Mas o sistema não foi desenhado para identificá-los e sustentá-los. Foi desenhado para produzir volume. E volume, em ciência como em literatura, não é qualidade.

O que fica, no fundo, é uma pergunta que Ortega fazia sobre a Espanha e que cabe igualmente aqui: para que serve a universidade? Se a resposta for apenas formar profissionais e produzir pesquisa, então o que temos hoje é, mais ou menos, o que queríamos. Se a resposta incluir formar pessoas que saibam pensar, que tenham consciência de seus limites, que não confundam o certificado com o saber, então o sistema tem um problema sério, e não é recente.

Sílvio Romero escreveu que a inconsciência das próprias limitações é a origem da arrogância e dos passos errados. Ele escreveu isso no século XIX também. Parece que a lista de diagnósticos precisos sobre o Brasil é longa.


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