Desde muito cedo, fui impregnado por aquela aura progressista que permeia os discursos, as rodas de conversa e as redes sociais. Sim, eu sou de esquerda. Na verdade, eu sou esquerda até a última fibra do meu ser, ou pelo menos, é o que tento ser. Mas oh, como somos uma massa de contradições ambulante, nós, os progressistas de carteirinha.
Aqui estamos nós, na era da informação, onde o acesso ao conhecimento nunca foi tão democrático e, no entanto, quantos de nós são capazes de admitir que, muitas vezes, escolhemos a comodidade da ignorância? Assumimos nossos smartphones com orgulho, mas nem sempre estamos dispostos a aceitar a responsabilidade que vem com o conhecimento.
O capitalismo é o nosso inimigo público número um, mas não podemos resistir a uma promoção na loja de roupas ou aos encantos de um novo gadget. Nossos discursos inflamados sobre a desigualdade social muitas vezes são proferidos enquanto aguardamos nosso pedido no café da moda, sem perceber o paradoxo de nossas ações.
Também somos rápidos em criticar os líderes políticos conservadores por sua hipocrisia e corrupção, mas em nossos próprios espaços de atuação, fechamos os olhos para questões éticas. Afinal, a revolução precisa de recursos, não é mesmo? E, de alguma forma, achamos que essa justificação nos absolve de nossas próprias contradições.
Nossos corações sangram pela justiça social, mas nossa consciência, muitas vezes, é mais seletiva. Somos capazes de defender com unhas e dentes a igualdade de gênero, mas nas relações pessoais, perpetuamos os estereótipos que tanto criticamos. O patriarcado é uma construção social que combatemos, mas na prática, muitas vezes reproduzimos seu modus operandi.
É verdade que somos apaixonados defensores do meio ambiente, e o aquecimento global nos tira o sono. Acreditamos no poder das energias renováveis e no uso consciente dos recursos naturais. Porém, nem sempre somos capazes de abrir mão de nosso conforto para aderir a práticas mais sustentáveis. Continuamos apegados aos nossos carros, voos internacionais e à conveniência dos produtos descartáveis.
Ser de esquerda é, muitas vezes, uma montanha-russa de contradições. É um constante exercício de autorreflexão, um equilíbrio delicado entre nossos princípios e nossas ações. É, ao mesmo tempo, acreditar em um mundo melhor e ser consciente de que, para alcançá-lo, precisamos encarar nossas próprias incongruências.
Então, aqui estou eu, um progressista em busca de sentido em meio às suas próprias contradições. E, apesar de todos os dilemas, permaneço esperançoso de que, um dia, seremos capazes de alinhar nossas palavras com nossas ações, transformando a esquerda em um movimento verdadeiramente coerente e poderoso em sua busca por justiça e igualdade. Até lá, seguirei dançando nessa corda bamba de contradições, tentando equilibrar o idealismo com a realidade, e, quem sabe, aprendendo a ser, todos os dias, um pouco mais de esquerda do que ontem.









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