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Ódio aos judeus une redpills e feministas

Quando o ódio precisa de um culpado à altura, o judeu continua sendo o candidato favorito, à direita e à esquerda


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Há uma cena perturbadora que qualquer um que mergulhe nos fóruns da machosfera encontra cedo ou tarde. Entre os tutoriais de sedução e os desabafos sobre rejeição feminina, aparecem memes com estrelas de Davi, referências ao “globalismo” e a teoria de que o feminismo é um projeto de destruição cultural orquestrado por judeus. Não é um desvio marginal. Faz parte da gramática do movimento.

O documentário “Por dentro da machosfera” deixa isso explícito. O que ele também deixa escapar, talvez involuntariamente, é que esse ódio específico não é propriedade exclusiva de homens raivosos em porões com acesso à internet.

A esquerda tem um problema com antissemitismo. Não a esquerda inteira, e não de forma idêntica à direita, mas o problema existe e é sério o suficiente para não ser varrido para debaixo do tapete retórico da “crítica a Israel”. Nos campus universitários americanos e europeus, ambientes majoritariamente progressistas, o que começou como solidariedade ao povo palestino frequentemente descambou para algo mais antigo e mais sujo. Professores que circulam textos negacionistas. Manifestantes que celebram ataques a civis sem qualquer constrangimento. Organizações feministas que excluem mulheres judias de coalizões com a justificativa de que o judaísmo é incompatível com a luta anticolonial.

A Womens March americana, em 2017, implodiu parcialmente por causa disso. Algumas de suas lideranças tinham relações documentadas com Louis Farrakhan, pregador que chamou Hitler de “grande homem” e descreveu judeus como “sugadores de sangue”. O movimento que se propunha a ser a vanguarda do feminismo interseccional não conseguiu resolver um conflito que, no fundo, não era complicado.

O que une a machosfera e esse setor da esquerda não é ideologia. Estrutura emocional, sim. Os dois movimentos operam a partir de uma narrativa de vitimização que precisa de um culpado à altura. Para os redpills, os judeus são os arquitetos do feminismo que os castrou. Para parte da esquerda identitária, Israel funciona como substituto conveniente do judeu histórico, um inimigo que pode ser odiado sem que ninguém precise admitir o que está fazendo.

Hannah Arendt já apontava que o antissemitismo moderno não é simplesmente preconceito ampliado, mas uma ideologia com lógica própria que se adapta ao vocabulário de cada época. Na direita do século XIX, o judeu era o capitalista cosmopolita que destruía as nações. Na esquerda do século XX, era o sionista imperialista. Na machosfera do século XXI, é o financista que paga pelo feminismo para enfraquecer o homem branco. Na esquerda identitária contemporânea, é o colonizador que precisa ser eliminado de qualquer conversa sobre opressão.
A forma muda. O mecanismo é o mesmo.

O que o documentário acerta é mostrar que a machosfera não é apenas misoginia, mas um ecossistema de ressentimentos que se alimentam mutuamente. O que ele não diz, e que precisaria ser dito, é que o antissemitismo não tem partido. Aparece onde há raiva organizada em busca de uma explicação simples para problemas complexos. Aparece onde há movimentos que precisam de um inimigo com rosto.
Reconhecer isso não é equivalência moral. A machosfera e o feminismo progressista não são a mesma coisa, e fingir que são seria desonesto. Mas é um problema ainda pouco abordado.


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