Há uma certa beleza trágica em viver num país onde a maior polêmica da semana envolve detergente. Não no sentido poético da palavra, mas no sentido mesmo de que a gente chegou num ponto em que lavar louça virou gesto político, e eu francamente não sei mais se rio ou se ligo para o meu psicanalista.
Deixa eu explicar o que aconteceu, porque talvez você também tenha lido as manchetes e ficado com aquela sensação de estar assistindo a um filme em idioma desconhecido. A Anvisa inspecionou a fábrica da Ypê em Amparo, interior de São Paulo, encontrou falhas nos controles de qualidade e risco de contaminação microbiológica em lotes específicos de produtos, e determinou o recolhimento. Isso é o que agências sanitárias fazem. É literalmente para isso que elas existem. Em qualquer país com instituições funcionando minimamente, essa história terminaria aqui com um comunicado chato, uma fila no SAC e talvez uma nota de rodapé no noticiário de economia.
Mas não. Porque a família dona da Ypê doou cerca de R$ 1,5 milhão para a campanha de Bolsonaro em 2022. E a empresa ainda foi condenada pela Justiça do Trabalho por assédio eleitoral, depois de promover uma live interna tentando convencer os próprios funcionários a votar no ex-presidente. Com esse histórico, uma parte do Brasil já boicotava a marca há anos — cada um decide onde gasta o seu dinheiro, tudo bem, sem novidade. O problema começou quando a Anvisa agiu e o campo bolsonarista concluiu, sem qualquer prova, que se tratava de perseguição política orquestrada pelo governo Lula.
A partir daí, o espetáculo se instalou com a naturalidade perturbadora de quem já não distingue mais palco de vida real. O vice-prefeito de São Paulo foi às redes convocar as pessoas a irem ao supermercado comprar Ypê como ato de resistência. Um deputado estadual declarou que em sua casa “só tem produto Ypê, que é gente séria, gente direita, gente bolsonarista.” Michelle Bolsonaro postou foto com o detergente. Jojo Todynho lavou louça ao vivo. Pessoas passaram a publicar vídeos usando os produtos sinalizados com risco de contaminação como demonstração de fidelidade ideológica.
Fidelidade ideológica. A um lava-louças.
Eu precisei parar, respirar e admitir que não entendi nada. E olha que eu me esforcei. Passei por todas as fases: a da leitura atenta, a da releitura desconfiada, a do “será que sou eu”, até chegar na fase final, que é a da aceitação melancólica. A bactéria, gostaria de lembrar a todos, não tem filiação partidária. Ela não vai poupar a sua louça porque você é de direita. A contaminação microbiológica é, e sempre foi, ideologicamente neutra. Usar um produto possivelmente contaminado para irritar o presidente da República é uma das estratégias mais originais que já vi em anos de República.
O que me perturba, porém, não é o episódio em si. É o que ele revela sobre o estado em que chegamos. Nada mais é apenas o que é. Não existe ato técnico, decisão burocrática ou recomendação científica que não seja imediatamente convertida em munição para a guerra cultural em curso. A Anvisa já foi chamada de inimiga antes, como durante a pandemia, quando a cloroquina precisava ser salva do rigor científico. Agora é o detergente. Amanhã será o amaciante, e eu não estou sendo irônica.
Tudo virou campo de batalha porque as pessoas precisam que tudo seja campo de batalha. A radicalização não é um efeito colateral dessa época, é o produto principal, o que se consome com mais prazer, o que gera mais engajamento, mais identidade, mais sentido de pertencimento numa vida que, suspeito, oferece cada vez menos dessas coisas por outros meios. Comprar detergente de uma marca específica e postar nas redes é, no fundo, uma forma de dizer: eu existo, eu pertenço, eu luto. É patético e é humano ao mesmo tempo, o que o torna ainda mais difícil de suportar.
A Anvisa recomenda que você não use os lotes afetados. Não por ordem do Palácio do Planalto. Não como manobra eleitoral. Mas porque tem bactéria no produto, e bactéria faz mal. Mais do que nunca, precisamos falar o óbvio.




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