Paul B. Preciado é um dos pensadores mais interessantes do nosso tempo. Seus livros misturam filosofia, autobiografia, política e provocação. Ele escreve com o próprio corpo. Não no sentido metafórico: ele se usa como laboratório para pensar o mundo. É um homem trans que não busca se encaixar, mas desmontar as regras que nos obrigam a ser de um jeito ou de outro. Preciado é alguém que se recusa a seguir o roteiro.
Em Manifesto contrassexual, seu primeiro livro, ele já começa chutando a porta. Diz que nossos corpos são construídos por normas. Que o que chamamos de homem e mulher não é natural, mas social. Que o pênis virou símbolo de poder não por ser um órgão, mas por ser uma espécie de prótese política. E propõe: por que não criar outros modos de viver o corpo, o prazer, o desejo? Não se trata de ser homem ou mulher, mas de inventar outros caminhos possíveis.
Depois veio Testo Junkie, talvez seu livro mais conhecido. Nele, Preciado começa a usar testosterona por conta própria, sem supervisão médica, como uma forma de resistir ao sistema que controla os corpos. Ele escreve enquanto aplica a substância em si mesmo. E, com isso, levanta questões sobre como a indústria farmacêutica e a pornografia moldam quem somos. Segundo ele, vivemos em um regime chamado farmacopornográfico, em que remédios e imagens eróticas governam nossa sexualidade, nossos afetos, nossa identidade.
Em Pornotopia, Preciado analisa a Mansão Playboy como símbolo desse novo mundo. Ele mostra como o império Playboy não era apenas uma revista, mas um modo de organizar o desejo masculino. A casa do Hugh Hefner era uma espécie de fábrica de prazer contínuo, cheia de câmeras, telas, camas giratórias e corpos disponíveis. Um espaço onde tudo era controlado, inclusive a liberdade. Para Preciado, não existe liberdade sexual se ela já vem moldada por um sistema que nos diz como gozar, quando e com quem.
Seus textos mais recentes ganham ainda mais força política. Em Um apartamento em Urano, ele escreve em forma de crônicas sobre sua transição de gênero e sobre o mundo em que vivemos. É um livro sobre ser estrangeiro em todos os sentidos: na língua, no corpo, no gênero, na nação. É íntimo, poético e político ao mesmo tempo. Já em Dysphoria Mundi, seu livro mais recente, Preciado amplia o debate. Ele fala sobre o colapso das estruturas sociais, o sofrimento psíquico generalizado, as crises políticas e ecológicas, e como tudo isso está ligado. A disforia, para ele, não é só uma questão de identidade de gênero. É o modo como vivemos hoje. Um mal-estar coletivo diante de um mundo em ruínas.
Por fim, Eu sou o monstro que vos fala é talvez seu texto mais direto e impactante. É a transcrição de uma fala que ele não pôde dar numa conferência. Em vez de convidá-lo para falar como filósofo, o chamaram para ser um “caso”. Como quem diz: fale da sua transição, não do seu pensamento. Em resposta, ele escreve um texto potente dizendo que não aceitará ser reduzido a objeto de estudo. Ele é o sujeito do discurso. E termina dizendo que é, sim, o monstro que veio falar. Um monstro não no sentido negativo, mas como figura que foge à norma, que desorganiza, que perturba. E é justamente por isso que precisamos ouvi-lo.
Ler Preciado é confrontar a forma como pensamos o corpo, o gênero, o desejo e a liberdade. Mas é também ser convidado a imaginar outras formas de viver. Ele não quer nos dizer o que fazer. Quer apenas nos mostrar que outras vidas são possíveis. E que talvez o futuro não esteja onde imaginamos, mas em Urano, ou em qualquer outro lugar onde possamos ser o que ainda nem tem nome.









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