Em um apartamento parisiense de paredes frias, Vincent observa seu rosto no espelho com a mesma repulsa de quem encontra um estranho. Coralie Fargeat, em Reality+ (2014), não nos entrega um futuro distópico de robôs ou invasões alienígenas, mas algo mais perturbador: um presente ampliado, onde a tecnologia não suplanta o corpo, mas corrompe o que ele significa. O curta, precursor temático de A Substância (2024), é uma sonda filosófica inserida na carne de uma sociedade que troca a autenticidade por avatares de si mesma. Aqui, a pergunta não é “o que nos torna humanos?”, e sim “o que resta de humano quando fugimos de nós mesmos?”.
Vincent, interpretado por Vincent Colombe, é um homem comum em um mundo onde a beleza se tornou uma moeda de troca tão líquida quanto o código binário. A solução para sua insegurança? Um chip implantado na nuca que distorce a percepção alheia, permitindo que outros vejam nele a versão idealizada que criou em uma interface semelhante a um jogo de RPG. A ironia é cruel: enquanto o “eu real” permanece visível apenas para aqueles que rejeitam o dispositivo, os usuários do chip habitam um ecossistema de mentiras consentidas, onde corpos esculpidos digitalmente dançam em clubes exclusivos e trocam sorrisos vazios. Fargeat constrói essa dinâmica com uma estética limpa, quase asséptica, onde a frieza das telas de personalização contrasta com o suor e a tensão de Vincent diante do espelho.
O cerne da obra não está na tecnologia em si, mas no que ela revela sobre nossa relação com a identidade. Ao escolher um avatar, Vincent não está apenas ajustando traços físicos — está negociando com sua própria existência. Jean-Paul Sartre, em O Ser e o Nada, falava da “má-fé”, esse autoengano no qual negamos nossa liberdade para nos esconder em papéis pré-fabricados. Em Reality+, a má-fé ganha corpo: Vincent não apenas interpreta um personagem, mas obriga o mundo a confirmar sua ficção. A tragédia, porém, surge quando percebemos que Stella, sua companheira de ilusões (Vanessa Hessler), também é prisioneira do mesmo jogo. Seus encontros, embora aparentemente perfeitos, são transações entre projeções — um contrato de solidão mútua.
Fargeat é sagaz ao evitar explicações simplistas. Não há vilões clássicos aqui, apenas a engrenagem silenciosa de um sistema que lucra com a autorrejeição. As cenas publicitárias do chip, exibidas em telas públicas como mantras pós-modernos, ecoam a lógica de Byung-Chul Han sobre a sociedade do cansaço: a pressão para sermos otimizados, belos e produtivos não vem de um opressor externo, mas de nós mesmos, internalizada como culpa. Vincent não é vítima de um regime totalitário — ele é voluntário em sua própria opressão, pagando para viver como refém de uma imagem.
O curta atinge seu ápice existencial no terceiro ato, quando Vincent descobre a possibilidade de tornar o avatar permanente através de uma modificação clandestina. A cena, filmada com uma luz suja e tremores de câmera que lembram vídeos amadores, expõe o horror por trás do desejo: a perfeição exige a mutilação do real. É aqui que Fargeat dialoga com a noção de “corpo sem órgãos” de Deleuze e Guattari — uma entidade desterritorializada, livre de hierarquias e significados fixos. Só que, ao contrário da utopia deleuziana, o corpo de Vincent+ não é libertação, mas cárcere.
O final, como o usuário pediu, não será revelado, mas basta dizer que Fargeat opta por uma ambiguidade delicada. Se há redenção, ela não vem do triunfo sobre o sistema, mas de um frágil lampejo de reconhecimento — não no espelho, mas no olho do outro. Em um plano que evoca a ética levinasiana, onde o rosto alheio nos convoca à responsabilidade, o filme sugere que a verdadeira conexão nasce da coragem de sermos vulneráveis, mesmo que isso signifique expor nossas imperfeições.
Reality+ poderia ser reduzido a uma crítica aos filtros do Instagram ou à tirania dos padrões estéticos. Mas Fargeat vai além: seu filme é um tratado sobre o preço da invisibilidade autoimposta. Em um mundo onde até a identidade virou commodity, resistir à tentação do avatar é um ato de rebeldia quase quixotesca. Resta saber quantos de nós, como Vincent, preferem a dor do real à mentira confortável do pixel.
“Reality+”, Coralie Fargeat
MUBI




Deixe uma resposta