Em De Quatro, Miranda July constrói uma narrativa que opera como um bisturi dissecando as camadas de uma existência em crise. A protagonista — artista multidisciplinar, mãe, esposa — inicia uma viagem de carro de Los Angeles a Nova York, ou seja, uma viagem que cruzaria os Estados Unidos, mas interrompe o percurso trinta milhas após a partida, refugiando-se em um hotel de subúrbio. O que poderia ser um mero desvio torna-se um portal para uma reinvenção radical. Ali, entre paredes descascadas e cortinas envelhecidas, ela gasta uma quantia absurda redecorando o quarto, transformando-o em um santuário rosa e perfumado, enquanto inicia uma relação tensa e não consumada com Davey, um jovem mecânico. A viagem física abortada dá lugar a uma jornada interior, onde a menopausa emerge não como um fim, mas como um limiar para renegociar pactos afetivos e existenciais.
July aborda a autoficção com uma ironia que desarma, com um humor muito afiado — apesar de tratar sobre assuntos complexos, De Quatro é sobretudo um livro divertido. A narrativa não se contenta em borrar fronteiras entre vida e arte; ela as dinamita. A protagonista, espelho invertido da autora, questiona a validade de suas próprias ficções: as mentiras ao marido, as fantasias sexuais, a persona artística. Aqui, o conceito sartriano de má-fé reverbera. Ao recusar-se a seguir para Nova York, ela não foge da realidade, mas confronta a inautenticidade de seus papéis sociais. A má-fé, para Sartre, é a tentativa de escapar da liberdade negando a responsabilidade sobre as escolhas. July subverte isso: a personagem mergulha na liberdade justamente ao admitir que suas construções — o casamento, a maternidade idealizada — eram narrativas tão frágeis quanto as performances artísticas que a tornaram famosa.
O motel reformado simboliza essa ruptura. Não é um espaço de fuga, mas de encontro consigo mesma, onde a protagonista experimenta uma eroticidade desvinculada de gênero ou expectativa. As cenas de masturbação e o affair não consumado com Davey são menos sobre sexo e mais sobre a reivindicação de um desejo que não precisa ser utilitário — não serve à reprodução, ao matrimônio, nem mesmo ao prazer convencional. É um ato político de existência, um habitar-se em tempos de secura hormonal.
July não romantiza a transgressão. A abertura do casamento, negociada após a revelação da traição, não é apresentada como solução libertadora, mas como um ajuste pragmático — quase burocrático — para preservar a estrutura familiar sem anular a individualidade. O humor ácido da autora brilha aqui: a personagem e o marido estabelecem dias específicos para encontros extraconjugais, como se agendassem reuniões de trabalho. A frieza do arranjo contrasta com a intensidade das emoções, revelando o paradoxo de querer ordem em meio ao caos interno.
Existe uma leveza com que July trata a materialidade desse processo. A reforma do motel, financiada por direitos autorais de uma frase vendida a uma marca de uísque, pressupõe um privilégio econômico que a narrativa não problematiza. A liberdade da protagonista é, em parte, sustentada por capital cultural convertido em dinheiro — um luxo inacessível à maioria.
A originalidade do livro está em sua decisão de tornar natural a meia-idade feminina. Longe de ser uma fase de declínio, a menopausa é aqui um entre-lugar fértil, onde a urgência do desejo se choca com a consciência da finitude. A personagem não busca rejuvenescimento, mas uma nova gramática para viver — menos linear, mais fractal. A personagem de July se pergunta: como negociar autenticidade em relações estabelecidas? É possível reinventar-se sem destruir o que se construiu?
De Quatro é muito corajoso ao habitar as próprias contradições. July escreve com uma precisão quase cirúrgica, misturando crueza e poesia, sem cair no sentimentalismo. O resultado é um livro que não se limita a narrar uma crise — ele a performa, deixando o leitor tão desconfortável quanto fascinado.
“De Quatro”, Miranda July
Amarcord








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