Tobias, aos 16 anos, é deixado pela mãe na casa dos avós, um casal cuja rotina é marcada pelo silêncio do ofício de vidraceiro do avô e pelos fragmentos de memória que escapam da avó com demência. O cenário bucólico, longe de ser um refúgio, torna-se o palco onde o adolescente confronta uma solidão que já habitava nele antes mesmo da chegada. A paisagem idílica da Dinamarca, com seus campos áridos e postos de gasolina desertos, não oferece consolo, apenas ecoa o vazio que Tobias carrega — um vazio que encontra forma em Aron, pintor de 25 anos cuja presença acende no garoto uma mistura de desejo e medo.
A relação entre os dois poderia ser apenas mais uma história de amor proibido, não fosse a maestria do diretor Søren Green em desviar do óbvio. Enquanto a câmera captura encontros fugidios em celeiros abandonados ou trocas de olhares em riachos isolados, B.O.Y.: Bruises of Yesterday(em dinamarquês, Glasskår) constrói, com paciência quase dolorosa, a anatomia de uma autodestruição. Tobias não luta contra um inimigo externo, mas contra a convicção íntima de que a dor é um direito seu. Cada arranhão autoinfligido, cada encontro sexual transformado em ritual de humilhação, é um hieróglifo que decifra sua crença inabalável: merecer o sofrimento é a única forma de existir que lhe resta.
Green não tem pressa. Deixa que a narrativa respire entre planos longos de skates deslizando sobre concreto e closes nas mãos do avô, calejadas pelo vidro, enquanto as da avó, ainda que trêmulas, tentam segurar o neto em gestos fracassados de afeto. A demência dela funciona como metáfora sutil do próprio Tobias — ambos perdendo pedaços de si, um pela doença, o outro pela recusa em se permitir inteiro. A filosofia de Heidegger sobre o Geworfenheit (ser-lançado) reverbera aqui: Tobias é um existente jogado em um mundo de adultos ausentes, onde a responsabilidade afetiva foi substituída por migalhas de atenção. Sua jornada é sobre sobreviver à própria condição de estar-no-mundo sem redes de apoio.
Quando a morte chega — abrupta, sem fanfarra —, a câmera não chora. Observa, impassível, enquanto Tobias se despedaça em atos que beiram o ritualístico: sexo casual transformado em automutilação, noites vagando por estradas vazias, o skate como único testemunha de sua dor. Noa Risbro, em atuação visceral, traduz com crueza a contradição de quem anseia por conexão, mas só sabe se relacionar através de feridas. Alexander Mayah Larsen, como Aron, evita o clichê do salvador, mostrando-se tão perdido quanto o garoto, ainda que menos disposto a admitir.
Há, sim, um fio de esperança no desfecho — não um salvamento heroico, mas um suspiro mínimo, quase imperceptível. Green não entrega redenção barata, apenas sugere que talvez haja beleza na fratura, como nos cacos de vidro que o avô transforma em arte. O filme não absolve os pais negligentes, nem transforma Tobias em mártir. Apenas reconhece: algumas cicatrizes não fecham, mas aprender a conviver com elas pode ser um tipo raro de coragem.
B.O.Y.: Bruises of Yesterday é incômodo e necessário. Um retrato que recusa simplificações, preferindo a complexidade árida da psique adolescente. Green não dirige com piedade, mas com uma honestidade que corta — como o vidro que dá título original à obra.
“B.O.Y.: Bruises of Yesterday”, Søren Green
Stremio




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