Eu ando com a sensação de que o sexo perdeu o cargo que tinha. Não completamente, claro, ele ainda provoca alvoroço, ainda movimenta aplicativos, ainda faz gente atravessar a cidade de madrugada. Mas algo mudou no lugar simbólico que ele ocupava. Durante muito tempo o sexo foi tratado como a última fronteira da intimidade. Era o gesto máximo. Era quase um rito. Permitir que alguém tocasse seu corpo nu significava que aquela pessoa tinha atravessado todas as outras camadas possíveis.
A não-monogamia entrou em cena prometendo liberdade para o desejo. E, em muitos sentidos, deu mesmo. As pessoas conversam sobre sexo de uma forma que antigamente seria impensável. Elas negociam. Estabelecem limites. Organizam as regras do jogo. Pode sair com outros. Pode transar com outros. Pode repetir. Pode dormir fora. Pode contar depois. Pode até não contar, dependendo do acordo. O desejo ganhou mobilidade, como se tivesse um bilhete único ilimitado.
Até que surgem certas cláusulas curiosas.
Já ouvi alguém explicar, com muita tranquilidade, que não se importava que o parceiro transasse com outras pessoas. Sexo estava liberado. O problema seria assistir a determinada série com outra pessoa. Aquela série era deles. Aquela história era território íntimo. Aquilo não podia ser dividido.
Eu fiquei pensando nisso por mais tempo do que gostaria de admitir.
Porque existe algo profundamente estranho na ideia de que dois corpos possam se tocar, se explorar, se penetrar, mas dividir uma narrativa de ficção seja considerado íntimo demais. Aparentemente é possível emprestar o próprio corpo com uma certa tranquilidade, mas não emprestar quarenta minutos de atenção diante de uma televisão.
É uma inversão curiosa. Como pode assistir uma série ser considerado mais íntimo do que transar?
Durante séculos a humanidade tratou o sexo como o ponto máximo de proximidade entre duas pessoas. Havia culpa, pecado, vergonha, escândalo, tudo girando ao redor daquele gesto específico. Agora parece que o sexo virou quase uma atividade extracurricular. Algo que pode acontecer sem necessariamente abalar a arquitetura afetiva de um relacionamento. Talvez porque o sexo tenha ficado rápido demais.
Ele acontece, termina e se dissolve. Muitas vezes não cria continuidade nenhuma. É um encontro físico intenso e breve, como um relâmpago. Já assistir uma série exige outra coisa. Exige presença repetida. Exige o tipo de convivência que vai construindo pequenas camadas de intimidade sem fazer barulho.
Você se senta ao lado da mesma pessoa várias noites seguidas. Vocês comentam personagens. Vocês esperam pelo próximo episódio. De repente existe ali uma espécie de mundo compartilhado, uma pequena rotina que pertence apenas aos dois.
Talvez seja isso que as pessoas estejam protegendo quando dizem que certa série só pode ser assistida com o parceiro.
O sexo sempre foi tratado como o lugar onde duas pessoas se revelavam completamente. Mas a verdade é que o corpo se revela muito rápido. Em poucos minutos ele já não tem mais segredos. O tempo, não. O tempo demora para se entregar. O tempo cria cumplicidade, cria memória, cria aquela sensação silenciosa de estar vivendo algo junto.
Talvez por isso o sexo tenha perdido parte da sua aura dramática. Não porque tenha deixado de ser importante, mas porque deixou de ser raro. Corpos hoje se encontram com uma facilidade que outras gerações não conheceram. O corpo ficou disponível demais e o tempo continuou escasso.
E talvez seja por isso que certas pessoas aceitam com relativa tranquilidade que o parceiro transite por outros corpos, mas ainda sintam que determinadas pequenas rotinas precisam permanecer protegidas.
No fundo eu fico com a impressão de que o sexo foi discretamente rebaixado na hierarquia da intimidade contemporânea. Ele continua sendo prazer, curiosidade, experiência, até afeto em muitos casos. Mas deixou de ser o lugar exclusivo onde duas vidas se encontram.
Hoje alguém pode ver seu corpo nu e mesmo assim não fazer parte da sua vida. Já dividir o tempo com alguém continua sendo um compromisso muito mais complicado, um investimento tido como muito alto.




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