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Câmeras se multiplicam em um carnaval de espionagem afetiva em “The Code”

Eugene Kotlyarenko usa uma multiplicidade de câmeras caseiras, smartphones, registros de tela e dispositivos de segurança para bolar uma comédia romântica maluca


Avatar de Hernandes Matias Junior

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Em meio a uma paisagem árida, Celine e Jay se enclausuram num Airbnb em Joshua Tree com a promessa de reavivar a intimidade estagnada e simultaneamente documentar o caos coletivo provocado pela pandemia de 2021. O que parecia um retiro criativo transforma-se num playground de câmeras: a namorada filma dos cantos mais inusitados, o namorado revida com câmeras ocultas, e o público recebe essa sobreposição como um compilado alucinógeno de imagens. É aí que The Code encontra seu tom divertido, porque cada pane técnica, cada tomada abrupta e cada riso desconfortável brotam do mesmo terreno: a vida online, ensanduichada entre telas que prometem aproximação e criam barreiras sutis.

A montagem frenética, assinada por Tucker Bennett e Sabrina Greco, emenda clipes de TikToks fictícios, registros caseiros de Dasha Nekrasova improvisando debates sobre microchips nas vacinas e cenas de Casey Frey soltando suas tiradas mais bizarras. Entre um corte e outro o espectador mal tem tempo de processar a ironia: é como se a estrutura do filme imitasse nosso scroll sem fim, sempre pulando de um feed a outro, procurando algo que acione o gatilho do próximo click. Nesse sentido, The Code aparece como sendo um filme experimental.

Peter Vack empresta ao Jay uma aura de insegurança encantadoramente neurótica: ele teme ser “anulado” pela internet e decide virar investigador amador, plantando câmeras e bisbilhotando cada mensagem no celular de Celine. Esses momentos rendem os melhores flertes de humor porque, enquanto Jay se sente vingador digital, a plateia ri ao perceber que ele está criando justamente aquilo que teme: exposição. É aí que pulsa um traço foucaultiano: o panoptismo ganhou upgrade para o século XXI, e o filme faz piada com o fato de que todos somos vigias e vigiados ao mesmo tempo, num looping sem descanso.

Apesar de algumas cenas de “cancelamento” não explorarem todo seu potencial satírico, o filme recupera o fôlego ao introduzir a família excêntrica de Celine em videoconferência: tios e avós soltam pérolas sobre criptomoedas, NFTs e, claro, piadas de WhatsApp, lembrando que o riso também ressurge no exotismo doméstico. Essa reviravolta traz leveza justamente quando a trama ameaça enveredar por diálogos excessivamente sérios.

No final, quando o casal finalmente chega a um “acordo” — ou ao menos pensa ter chegado — a última tomada em alta definição dá um soco visual de ternura e ironia. Por um segundo, parece que Jay e Celine descobriram um elo além das câmeras; logo depois, percebemos que a câmera continua girando, registrando cada suspiro como se fosse parte de um experimento social. The Code não entrega manual de sobrevivência pós-pandemia, mas diverte ao expor nossas manias de exposição, os humorísticos enganos de vigilância e, sobretudo, a capacidade de rir das próprias armadilhas afetivas. Nesse jogo de câmeras e corações, sobra provocação e falta a pretensão de moralizar — e isso faz toda a diferença.


“The Code”, Eugene Kotlyarenko

MUBI

Avaliação: 3 de 5.


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