Não é café. Não, definitivamente não é café. Afinal, quem disse que a rotina é uma xícara de café quentinho, com aquela fumacinha sensual que sobe, sedutora, enquanto a vida se desenrola numa dança suave? Pois bem, eu digo que não. O nosso cotidiano contemporâneo é mais parecido com um vendaval, daqueles que arrancam telhas, jogam árvores ao chão e deixam nossa alma num misto de assombro e fascínio. É caos, é um pandemônio organizado, é um espetáculo incessante que chamamos de vida.
Mas, veja bem, não podemos simplesmente ignorar ou desprezar esse caos, como quem vira o rosto para não encarar o espelho pela manhã. O cotidiano, por mais caótico que seja, é nosso companheiro mais fiel e, muitas vezes, nosso grande amor incompreendido.
Eis que acordo de manhã, o despertador brigando com meus sonhos, atrasado para a corrida diária contra o tempo. Afinal, no século XXI, o tempo é um recurso valioso, e somos todos corredores de maratonas contra o relógio. E nessa corrida, esbarro em outros corredores, em bicicletas elétricas e carros autônomos, todos na mesma pista, todos ansiosos para alcançar um objetivo que, muitas vezes, sequer sabemos qual é.
O cotidiano caótico também nos presenteia com os dilemas tecnológicos. Como eu deveria responder às dezenas de mensagens no WhatsApp, emails na caixa de entrada, notificações do Facebook, tweets no Twitter e likes no Instagram? O que fazer com os amigos virtuais que conheço apenas pelos avatares, mas que parecem entender mais sobre mim do que os amigos reais que vejo com frequência? É uma verdadeira balada tecnológica que nunca termina.
E o trânsito! Ah, o trânsito. Os engarrafamentos que nos lembram, a cada buzina e freada brusca, que o caos pode ser encontrado também nas ruas. O cotidiano contemporâneo é repleto de conversas telefônicas interrompidas, playlists descontroladas e apps de mapas nos levando para destinos desconhecidos, onde a única certeza é que chegaremos atrasados.
Mas, veja só, é nesse cotidiano caótico que encontramos beleza. É nos abraços apertados depois de um longo dia de trabalho, nas gargalhadas compartilhadas nas horas vagas, na música alta que nos faz esquecer os problemas do mundo. É nas conversas profundas no meio do caos, nos olhares trocados no meio do trânsito, nas pausas que fazemos para apreciar o pôr do sol entre reuniões lotadas.
O cotidiano caótico é como um grande amor incompreendido, cheio de altos e baixos, desafios e alegrias. E, assim como no amor, é preciso aprender a abraçar o caos e encontrar a beleza no meio da tempestade. Afinal, é no meio do caos que encontramos a verdadeira essência da vida, a capacidade de superar obstáculos e, no final do dia, olhar para trás e dizer: “Foi um dia louco, mas foi o meu dia, e eu o vivi intensamente.”
E assim seguimos, nesse cotidiano caótico que é a nossa vida, tentando encontrar a poesia no meio do pandemônio, e quem sabe, no final das contas, descobrimos que o caos é a nossa forma de amor.









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