A hipocrisia organizada oferece um conforto intelectual que nenhuma outra ideologia consegue replicar. Ela permite que o ser humano acorde todas as manhãs absolutamente convicto de sua retidão moral enquanto pratica, sem pestanejar, aquilo que diz abominar. No Brasil, esse conforto foi democratizado e transformado em plataforma eleitoral.
Esta semana a realidade teve a delicadeza de fornecer um exemplo didático. O Intercept revelou, em áudio e mensagens de WhatsApp, que Flávio Bolsonaro, senador e pré-candidato à presidência, negociou com Daniel Vorcaro o repasse de 24 milhões de dólares, cerca de R$ 134 milhões, para financiar um filme sobre a vida do pai. O mesmo Vorcaro que, no dia seguinte ao envio de uma dessas mensagens, foi preso pela Polícia Federal por operar um esquema de fraude que causou um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito. O senador chamava o banqueiro de “irmão” e garantia que estaria “sempre” com ele. Quando confrontado por jornalistas na manhã da publicação, Flávio disse que era mentira. Algumas horas depois, confirmou que era verdade, mas garantiu que não havia ilegalidade. O clássico.
A resposta da pré-campanha foi amplamente criticada pelos próprios aliados, que usaram palavras como despreparo, amadorismo e falta de comando para descrever o contra-ataque. A avaliação interna é de que o vídeo gravado por Flávio saiu fora do tom e que a resposta foi mais danosa do que a crise em si. Alguns nomes da direita aproveitaram o momento para se descolar. Romeu Zema chamou o episódio de “tapa na cara dos brasileiros de bem” e afirmou que não adianta criticar as práticas do PT para fazer a mesma coisa. Caiado cobrou explicações públicas. O espaço para a fotografia da ruptura foi fartamente ocupado.
Mas a base fez o que a base sempre faz. Passou pano com o argumento de que o dinheiro era privado, de que Vorcaro ainda era um banqueiro respeitado à época, de que a Polícia Federal vaza seletivamente a mando do governo, de que a mídia só aparece quando o alvo é de direita. O entorno do senador adotou a estratégia de tentar imprimir um tom de normalidade e garantir que, faltando cinco meses para as eleições, o escândalo sairia de foco a tempo. Ou seja, o plano para lidar com uma crise ética é esperar que o eleitorado esqueça. E a aposta, lamentavelmente, tem fundamento histórico.
O movimento é familiar porque já foi ensaiado antes. O mesmo clã que edificou sua identidade política sobre o combate à corrupção produziu, em sequência, o caso do assessor fantasma, a movimentação financeira do filho explicada com criatividade digna de roteirista, e agora o senador que chamava de irmão um banqueiro foragido enquanto pedia dele mais de cem milhões de reais. Cada episódio foi absorvido pela base com a mesma liturgia de sempre: perseguição, lawfare, mídia comprada, comparação com o PT. O anticorrupção do clã sempre foi uma régua de borracha, que estica e encolhe conforme o medido.
Seria, porém, intelectualmente desonesto parar aqui e deixar o outro lado de paletó. O lulismo construiu sua epopeia narrativa sobre o horror à ditadura militar, sobre o sofrimento real de quem foi perseguido, torturado e exilado. Essa memória tem peso histórico inegável. O problema começa quando a mesma indignação que evoca esse passado se recusa a aplicar o mesmo padrão moral ao presente.
Pergunte a um lulista sobre Cuba. Você receberá uma explicação sobre processo histórico específico, sobre o bloqueio americano que justifica tudo, sobre conquistas sociais que a imprensa ocidental se recusa a reconhecer. Pergunte sobre a Venezuela de Maduro, onde opositores apodrecem em prisões, eleições são fraudadas com a desfaçatez de quem sabe que não será punido e o êxodo de população alcançou proporções que o continente raramente viu. Você ouvirá que a situação é complexa, que o imperialismo distorce a cobertura, que é preciso entender o contexto. Pergunte sobre a Nicarágua de Ortega, que prendeu bispos e expulsou ordens religiosas. O assunto mudará com a agilidade de quem pratica essa manobra há décadas.
O mecanismo dos dois lados obedece à mesma gramática. A corrupção só escandaliza o bolsonarista quando praticada por adversários. A ditadura só escandaliza o lulista quando conduzida por governos do campo oposto. Cuba e Venezuela existem numa bolha hermenêutica à parte, imunes ao mesmo escrutínio que se aplica, com toda a razão, à repressão militar brasileira. O princípio, nos dois casos, nunca foi um princípio. Foi um argumento de ocasião, guardado na gaveta e retirado conforme a conveniência.
O eleitor que acredita de fato no que defende, que leva a sério a bandeira que carrega, é a vítima permanente desse arranjo. Deposita fé onde existe cálculo. Leva a sério o que foi concebido como encenação. E enquanto ele aguarda que seu lado finalmente cumpra o que prometeu, os dois campos seguem se acusando mutuamente de encarnar o fim da república, cada um cultivando suas próprias contradições com a dedicação de quem não pretende abandoná-las tão cedo.
O áudio do irmão Flávio com o banqueiro preso não vai abalar nenhuma certeza. Assim como as cumplicidades com regimes autoritários nunca produziram uma revisão honesta sequer do outro lado. O poder real da hipocrisia organizada está justamente aí. Ela dispensa conversão. Basta que cada campo mantenha os olhos bem abertos para os pecados alheios e bem fechados para os próprios. Nessa arte, os brasileiros dos dois lados demonstram um talento que, francamente, impressiona.









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