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Se quero dinheiro, alguém precisa me dar

Estudantes da USP entram em greve pelo aumento do valor do auxílio permanência


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A Universidade de São Paulo está parada desde 15 de abril. Estudantes de 104 cursos permanecem em greve, as aulas suspensas, os professores sem ministrar conteúdo. O estopim foi um bônus de R$ 4.500 criado para docentes que assumissem projetos considerados estratégicos pela reitoria, como oferecer disciplinas em inglês. A medida irritou servidores, que pressionaram por isonomia, conseguiram, e encerraram a paralisação. Os alunos ficaram, e ampliaram a pauta.

O centro da disputa agora é o auxílio estudantil. Hoje, o Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil paga R$ 885 por mês a alunos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Os estudantes querem R$ 1.804, valor equivalente ao salário mínimo paulista. A reitoria propôs reajuste pelo índice IPC-FIPE, o que elevaria o benefício para R$ 912. Os alunos recusaram. Depois de três reuniões e quase vinte horas de negociação, a universidade declarou encerrado o diálogo. O movimento convocou nova assembleia e segue mobilizado.

É importante registrar o que já existe antes de discutir o que falta. O orçamento da USP para assistência estudantil em 2026 é de R$ 461 milhões, cobrindo bolsas, moradia, restaurantes universitários, saúde e transporte. O programa atende 17.587 alunos de graduação e pós-graduação. Não se trata de uma instituição indiferente à pobreza de seus estudantes. Trata-se de uma instituição que, na gramática do movimento estudantil, simplesmente nunca faz o suficiente, porque o suficiente, nessa gramática, não tem definição estável.

Há uma lógica subjacente a essa greve que ultrapassa os muros da USP e merece ser nomeada com precisão. O Brasil herdou do pensamento ocidental contemporâneo, especialmente da tradição europeia do pós-guerra, a ideia de que necessidade e direito são equivalentes. Se alguém precisa de algo, então tem direito a isso, e quem deve providenciar é sempre uma entidade coletiva, o Estado, a universidade, a instituição. O problema não está na compaixão que motiva esse raciocínio. Está na transformação que ele opera quando sai do campo moral e entra no campo político: direitos, ao contrário de recursos, são ilimitados no papel.

A Europa construiu o welfare state como um piso. Uma garantia mínima de dignidade abaixo da qual nenhum cidadão deveria cair. O Brasil pegou essa ideia, ignorou o conceito de piso e passou a usá-la como teto móvel, que sobe toda vez que um grupo organizado faz pressão suficiente. Moradia, transporte, saúde mental, auxílio estudantil equivalente ao salário mínimo, alimentação de qualidade no bandejão, cada necessidade percebida se converte automaticamente em direito exigível, e cada direito exigível se converte em obrigação de gasto, sem que se discuta seriamente de onde vem o dinheiro, quem deixa de ser atendido para que a nova demanda seja satisfeita, ou se a expansão é sustentável.

O que torna essa dinâmica particularmente difícil de confrontar é que ela sequestra a linguagem da dignidade. Questionar se R$ 1.804 é um valor razoável para o auxílio permanência não é uma posição neutra no Brasil de hoje. É uma posição suspeita, associada a quem “é contra os pobres” ou “defende os privilégios da reitoria”. A discussão sobre custos, prioridades e sustentabilidade é tratada como desvio de pauta, como se falar em orçamento fosse uma forma de crueldade. O resultado é que o debate nunca acontece de verdade. O que acontece é pressão de um lado e recuo ou confronto do outro.

Ninguém é obrigado a achar que R$ 885 é suficiente para um estudante em situação de vulnerabilidade cursar a maior universidade do país. Essa é uma discussão legítima, com argumentos sérios dos dois lados. Mas há uma diferença entre apresentar uma demanda e declarar um direito. Demandas se negociam, se fundamentam, aceitam contrapartidas e reconhecem limites. Direitos não. E quando tudo vira direito, a negociação deixa de ser possível, e a política se transforma num ciclo permanente de pressão, concessão e nova pressão, sem que nenhuma das partes precise jamais responder pela conta.​​​​​​​​​​​​​​​​


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