Se você parar para analisar as principais músicas de sucesso no Brasil atualmente, perceberá a proliferação do que poderia ser chamado de “anittismo cultural”. Uma epidemia que transforma a música em uma mercadoria descartável, uma linha de produção acelerada, onde a qualidade se dissolve na pressa de lançamentos e nas polêmicas fabricadas para manter a atenção do público.
A atual safra musical, mais do que uma expressão artística, parece ser uma competição de quem consegue produzir mais hits em menos tempo. As composições, antes fruto de uma inspiração genuína, são agora fabricadas por equipes de roteiristas e produtores, atendendo à demanda frenética do mercado. O que importa é a velocidade com que uma música é lançada, não a profundidade artística que ela pode oferecer.
A era digital trouxe consigo a triste métrica de sucesso: visualizações e curtidas. A qualidade musical é agora medida não pela maestria do artista, mas pela capacidade de viralização instantânea. Somos testemunhas de canções que nascem e morrem no mesmo dia, incapazes de se firmar na memória coletiva. São natimortos sonoros.
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As músicas agora são projetos de marketing. Cada lançamento é acompanhado por uma polêmica cuidadosamente elaborada para manter a chama midiática acesa. O foco não está na música, mas nas estratégias de autopromoção, transformando artistas em personalidades midiáticas vazias. A própria Anitta é mais conhecida por ser uma “boa empresária” do que por ser uma artista.
Já a curta duração das músicas reflete não apenas a atenção fugaz do público, mas também a superficialidade com que são concebidas. São fórmulas prontas, embaladas para consumo rápido, destinadas a serem esquecidas tão rapidamente quanto foram ouvidas. Neste caso, percebe-se que o anittismo cultural não nasce, necessariamente, de dentro da indústria musical, mas que pode ser entendido também como uma responda à demanda do público.
Nesse panorama desolador, alguns artistas resistem à maré do anittismo. Marina Sena e Lamparina destacam-se como excessões nesse deserto de produções padronizadas. No entanto, são eclipsados por subcelebridades que, embora se autodenominem artistas, contribuem para a diluição da identidade musical brasileira. Essas subcelebridades se vão se multiplicando e entram em nossas casas, sem a nossa permissão, como uma nuvem de gafanhotos.
Junto à sua superpopulação, o excesso de participações musicais, muitas vezes sem qualquer conexão artística ou relevância, ilustra a desesperada busca por notoriedade instantânea. Colaborações superficiais entre artistas que pouco têm a dizer juntos apenas amplificam a sensação de vazio que permeia a música brasileira contemporânea.
Estamos, portanto, imersos em uma era em que a música é moldada por critérios comerciais e não por uma expressão artística legítima. O anittismo cultural é mais do que um fenômeno musical; é uma manifestação da superficialidade e do imediatismo que permeiam nossa cultura contemporânea. Resta-nos esperar por uma renovação, por artistas que resgatem a autenticidade e a profundidade perdidas nesse mar de sucessos efêmeros.




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