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“O Senador” é constrangedor ao tentar criar história de suspense

Dirigido por Mauro Carvalho, thriller nacional de baixo orçamento acompanha a investigação do assassinato de um senador de direita com vida dupla


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O Senador se inicia com o corpo de Arthur Alencar sendo descoberto em circunstâncias misteriosas, e a peça principal do enredo se arma na alternância de depoimentos e flashbacks que reconstroem sua realidade dupla. Senador defensor de pautas familiares tradicionais, Arthur mantinha em segredo um vínculo com Rennan, jovem seduzido por conforto financeiro e promessas de prestígio. A câmera, presa a cenários esparsos e mobiliário modesto, tenta criar clima de tensão, mas o embate entre o político articulado e o rapaz inseguro é entregue por atuações que variam entre o seco e o exagerado, o que compromete a empatia.

Enquanto Victor, o jornalista interpretado por João Cury, sobe o tom de denúncia ao acessar mensagens e confidências de Rennan, suas investigações se entrelaçam com a rotina de interrogatórios conduzida pelo detetive Carlos. A montagem aposta no suspense — recortes de uma taça vibrando, trocas de olhares em corredores mal iluminados — mas esbarra em diálogos ensaiados que raramente soam naturais. Ainda assim, há mérito em expor a lógica dos “jobs” e “sugars” como elemento de exploração, mostrando como poder e erotismo se instrumentalizam mutuamente nesse universo subterrâneo.

A despeito do bom fio narrativo que prende ao enredo de hipocrisia e privilégio, o equilíbrio se perde em cenas de conflito: o senador se mostra ciumento, claustrofóbico, demanda concessões para manter o controle, e Rennan alterna afeto e ressentimento sem desenvolver sua própria voz. A jornalista Teodora (Juliana Zancanaro) surge pontual para injetar dinamismo, mas acaba reduzida a bordões e a uma confiança inabalável em Victor, sem explorar nuances de ambição feminina ou dilemas éticos.

Carvalho recorre a um plot twist final que busca mexer com nossas expectativas, mas a revelação soa construída de forma artificial, sem pistas substanciais ao longo da narrativa — falha que põe em evidência a dependência de artifícios em vez de um desenvolvimento orgânico dos personagens. É justamente aí que a dissonância cognitiva, conceito emprestado da psicologia social, poderia ter aportado profundidade ao drama, ao confrontar a visão que o eleitor tinha de Arthur com suas motivações íntimas; no entanto, o potencial crítico se esvai diante da execução desapontadora.

A trilha sonora tenta sugerir tensão e sedução, mas não sincroniza com o andamento das cenas, entregando momentos musicais que soam deslocados ou excessivamente prolongados. A direção de arte, mesmo limitada, acerta ao evocar o ambiente de gabinete político e apartamentos de aluguel de luxo, mas o resultado final permanece espartano. Ficamos com um thriller que até tem combustível dramático — corrupção, traição e poder pelo poder —, mas que funciona mais como esboço de boas ideias do que como obra plenamente realizada.


“O Senador”, Mauro Carvalho

Stremio

Avaliação: 1 de 5.


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