Gomorrah mergulha de cabeça em um universo onde o glamour não sobrevive ao cheiro de pólvora e ao descarte de corpos como mero detalhe. Sem suavizar a violência, o filme de Matteo Garrone acompanha cinco trajetórias — do garoto que acredita numa ascensão rápida ao homem que pedala malas de dinheiro, do alfaiate que costura sob coação à dupla de moleques influenciados por Scarface, até o executivo de resíduos tóxicos — como quem mostra fragmentos de um mosaico sombrio que nunca se encaixa por completo.
A fotografia evita festividades visuais: é tudo meio cinza, meio sujo, e funciona como um lembrete crítico de que, para essa máquina, qualquer vida humana é apenas mais um insumo. A câmera flutua, quase alheia, e captura conversas breves, silêncios pesados e closes em mãos trêmulas. Não espere composições mirabolantes — aqui, o suspense nasce do contraste entre a rotina banal e o estalo repentino de um tiro.
Em vez de narrar uma grande guerra de poder, Garrone prefere mostrar o dia a dia: o alfaiate cansado que vê seu vestido brilhando num tapete vermelho à distância; os adolescentes que disparam sem entender as consequências; o empresário que transfere lixo industrial para campos e vilarejos. Cada segmento revela como o crime se integra ao tecido social, criando uma hierarquia invisível onde ninguém está realmente seguro.
Embora a trama não ofereça saídas, há um tipo de humanidade crua nas brechas: um sorriso nervoso, um abraço arrancado entre medo e carinho. Esses pequenos instantes ganham destaque porque interrompem o fluxo implacável de exigências e ameaças. É nessa oscilação entre dureza e fragilidade que o filme encontra sua pulsão mais cativante.
Gomorrah não busca redenção, tampouco estranhamento. Ele traz você para dentro de um mundo em que a monotonia do absurdo é o maior terror. E, ao terminar, deixa a sensação de ter testemunhado algo raro: um cinema que não disfarça o rosto feio do poder e insiste, sem floreios, na urgência de enxergar o que insistimos em ignorar.
“Gomorrah”, Matteo Garrone
MUBI




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