Em Nova York, a universitária e bartender Shae vê o chão abrir quando o namorado mais velho e casado decide voltar para a família. A noite de afogamento de mágoas com a colega de bar Lu muda de tom rápido. Elas conhecem três rapazes, Shae é violentada por um deles na manhã seguinte, a tentativa de registro na polícia esbarra em desinteresse e humilhação, e Lu passa a oferecer aquilo que o sistema não entrega, uma rota direta para a retaliação. A dupla então procura os envolvidos e, em sequência, também mira o ex que a abandonou. A escalada de violência é frontal, com cenas de tortura e execuções filmadas de modo frio, enquanto a relação entre as duas vira um cabo de guerra no qual Shae começa a recuar e Lu avança sem freio. O resultado é um ciclo de mortes que ignora consequências práticas e fecha com um desfecho que pretende chocar mais do que esclarecer a trajetória emocional de quem sobrevive.
Como narrativa de vingança após estupro, Girls Against Boys tenta se colocar ao lado de títulos que confrontam misoginia com força bruta. O problema é que Austin Chick investe num pacote de estilo que dilui a experiência em lugar de fortalecê‑la. A câmera gosta de close prolongado no rosto de Shae, usa câmera lenta com frequência e empilha sons de pista e drones ameaçadores para emular transe urbano. A atmosfera funciona pontualmente, mas vira vício e ocupa o espaço que faltava para a construção de personagem. Danielle Panabaker fica presa à mesma expressão rarefeita por longos trechos, e a jornada de choque, desespero, desejo de justiça e culpa quase não aparece como processo, só como switches que ligam e desligam de cena para cena. Já Nicole LaLiberte encontra presença magnética para Lu, embora a direção a empurre para um conjunto de tiques e sedução performática que, somado a figurinos e enquadramentos, frequentemente flerta com fetichização.
O roteiro ainda sabota a própria premissa ao embaralhar tom e tese. Enquanto a trilha de sala de aula com trechos de debates sobre gênero e representação sugere que haverá comentário consistente, a encenação prefere a exploração de imagem e a suspensão da realidade. Crimes acontecem em sequência sem que a trama lide com investigação, balística, testemunhas ou rastros óbvios. O filme tenta argumentar que a violência sistêmica contra mulheres encontra uma resposta fora da lei, mas rapidamente amplia o alvo para qualquer homem inconveniente, o que afunda a discussão em generalização e oportunismo. Também fica uma sombra incômoda quando o vínculo entre as protagonistas é usado como motor de ameaça, desviando o foco do agressor inicial para uma dinâmica possessiva que troca complexidade por provocação vazia.
Do ponto de vista filosófico, o que está em jogo seria a disputa entre retribuição e justiça institucional. A obra até ergue esse arco, mas desiste de pensar as implicações. A retribuição vira espetáculo, sem que se investigue o que ela custa a quem sofreu a agressão e a quem a executa, e sem que se avaliem as saídas possíveis diante do colapso de confiança nas instituições.
Ainda assim, há méritos isolados. O desenho de som cria uma sensação de madrugada interminável, a fotografia das baladas e apartamentos imprime um brilho envenenado e LaLiberte transborda energia em quase toda aparição. Nada disso resolve a falta de eixo. A ideia de que se questiona o olhar masculino perde potência quando a câmera se demora no corpo das protagonistas do mesmo jeito que filmes que o longa diz combater. A promessa de estudo psicológico se desfaz quando Shae muda de atitude sem gatilhos compreensíveis. E a provocação final não fecha contas com o trauma inicial nem com as mortes acumuladas, apenas adiciona ruído.
Girls Against Boys tem assunto relevante e um elenco capaz, mas escolhe o atalho do choque sem elaboração. Ao fim, resta um híbrido entre tese de bar, estilização noturna e violência coreografada que pouco acrescenta ao subgênero e pouco ilumina a experiência de quem viveu o que o filme usa como motor dramático.
“Girls Against Boys”, Austin Chick
Reserva Imovision




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