Três contos, três cidades italianas, três variações sobre o tema da sobrevivência em ‘Ontem, Hoje e Amanhã’, um clássico de Vittorio De Sica que desfila o talento de Sophia Loren e Marcello Mastroianni em sua máxima potência. Em Nápoles, uma vendedora de cigarros contrabandeados usa a gravidez como escudo contra a prisão, numa dança cínica com as leis e a moralidade. Em Milão, uma socialite entediada flerta com um jovem escritor, questionando os limites da liberdade e do desejo numa burguesia anestesiada. Finalmente, em Roma, uma cortesã de alta classe, vizinha de um seminarista, precisa lidar com o medo de que sua profissão seja um obstáculo para a vocação religiosa do rapaz, explorando a complexidade das relações humanas e o conflito entre o sagrado e o profano.
De Sica, com sua habitual maestria, tece uma tapeçaria de situações cômicas e, por vezes, melancólicas, onde o instinto de sobrevivência e a busca pela felicidade se manifestam de formas inesperadas. O filme, longe de oferecer julgamentos morais simplistas, observa a realidade italiana do pós-guerra com um olhar perspicaz e humanista. A direção de arte, impecável, transporta o espectador para as ruas vibrantes de Nápoles, a elegância fria de Milão e a opulência discreta de Roma, criando um retrato multifacetado de um país em transformação. Mais do que uma simples comédia, ‘Ontem, Hoje e Amanhã’ é um estudo sobre as contradições da condição humana, um reflexo da dialética entre o ser e o nada, onde cada personagem busca, à sua maneira, preencher o vazio existencial com pequenos prazeres e grandes sonhos.




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