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“Riley” acompanha um atleta em sua autodescoberta queer

Na trajetória de um jovem atleta, Benjamin Howard revela o coração de quem se esconde atrás de uma máscara


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Entre as muitas histórias de amadurecimento que o cinema já contou, Riley, longa-metragem de estreia de Benjamin Howard, não busca reinventar a roda, mas gira-a de forma pessoal e avassaladora. Inspirado na própria trajetória de Howard como jogador de futebol americano no colégio, o filme foca em Dakota Riley (interpretado por Jake Holley), um astro juvenil cuja batalha interna para aceitar sua sexualidade desmonta a fachada de sucesso e estabilidade que ele construiu com tanto esforço.

A narrativa abre com uma cena emblemática: Riley em um quarto desconhecido, tentando preencher o vazio com um encontro casual. Esse instante, ao mesmo tempo íntimo e desconfortável, encapsula a essência do filme. Riley não está em busca de prazer imediato, mas de uma resposta para o labirinto emocional que o aprisiona. Ao longo da história, Howard desconstrói não apenas os estereótipos em torno da masculinidade no esporte, mas também o autoengano que muitas vezes acompanha a negação de quem somos.

Jake Holley entrega uma atuação sutil e poderosa, equilibrando força e vulnerabilidade. A complexidade emocional de Riley se revela nos silêncios, nos olhares furtivos e nas hesitações — como se cada movimento fosse medido pelo peso das expectativas alheias. Ao seu redor, Colin McCalla (Jaeden) encarna o melhor amigo cujo apego fraterno guarda subtextos, enquanto Connor Storrie (Liam) interpreta um colega assumidamente gay que desafia Riley com empatia e uma percepção aguda. Riley Quinn Scott, por sua vez, brilha como Skylar, a namorada que, mesmo percebendo a distância crescente entre os dois, oferece um espaço de carinho e compreensão.

O roteiro de Howard é perspicaz em evitar didatismos, permitindo que as relações se desdobrem de forma orgânica. A tensão entre Riley e seu pai, um ex-jogador de futebol que projeta no filho suas ambições frustradas, é especialmente dolorosa. No entanto, a ausência de vilões óbvios no filme reforça a ideia de que o maior conflito de Riley é consigo mesmo. A sociedade pode ser cruel, mas o ódio internalizado muitas vezes é um adversário ainda mais implacável.

Visualmente, o diretor de fotografia Michael Elias Thomas transforma o cotidiano em poesia. A luz desempenha um papel central, oscilando entre sombras que capturam a sensação de sufocamento de Riley e tons mais quentes que sugerem momentos de esperança. Em uma cena memorável, Riley e Liam conversam sob a luz oscilante de um poste, como se o mundo ao redor existisse apenas como um eco distante de suas emoções.

A trilha sonora de Jerik Centeno, por sua vez, é um elemento vital. As composições originais, intercaladas com músicas pop cuidadosamente escolhidas, equilibram o peso dramático da narrativa com a energia juvenil do ambiente escolar. A música, assim como o futebol, serve de lembrete de que, por trás da complexidade emocional dos personagens, há adolescentes tentando encontrar seu lugar no mundo.

Howard não está interessado em finais felizes, mas em honestidade. No clímax, quando Riley finalmente compartilha seu segredo com alguém próximo, o alívio é palpável, mas as incertezas permanecem. A aceitação de si mesmo é apenas o primeiro passo de um caminho longo e imprevisível.

Riley é, acima de tudo, um filme sobre autenticidade. Benjamin Howard não apenas narra sua própria história, mas estende a mão para todos aqueles que, como Riley, buscam a liberdade de ser. Um filme necessário, doloroso e belamente humano.


“Riley”, Benjamin Howard

Disponível no Stremio

Avaliação: 4 de 5.

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