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O amor muda como as estações em “Felicidade Conjugal”

Entre a promessa da paixão e o desafio da convivência, Lev Tolstói entrega um retrato íntimo da complexidade de amar e ser amado

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Entre a promessa da paixão e o desafio da convivência, Lev Tolstói entrega um retrato íntimo da complexidade de amar e ser amado


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livros que nos conquistam pelo peso das suas palavras e outros que nos desarmam pelo que escondem entre as linhas. “Felicidade Conjugal”, de Lev Tolstói, pertence a essa segunda categoria. Escrito em 1859, o romance é uma obra de nuances, que nos conduz com delicadeza pelos ciclos de uma relação amorosa — da paixão inicial à maturidade inevitável.

A narradora é Mária Aleksándrovna, uma jovem de 17 anos, recém-órfã, que vive com a irmã em uma propriedade rural. Ao seu lado está Sergei Mikhailovich, um homem de 36 anos, amigo da família e agora tutor das jovens. Ele é apresentado como alguém responsável, confiável, e inicialmente distante. É nesse contexto que a trama se desenrola, com um desenvolvimento surpreendentemente sutil: o que começa como uma relação de cuidado e hierarquia se transforma, gradativamente, em amor.

A primeira parte do livro é como a primavera: cheia de cor, leveza e expectativas. Mária, uma jovem ainda inexperiente, olha para Sergei como alguém que combina estabilidade e mistério. Ele, por outro lado, carrega dúvidas sobre o que sente por ela, sobre a diferença de idades e o quanto seria correto transformar aquele vínculo paternal em algo romântico. É nesse jogo de olhares, silêncios e hesitações que o casamento se concretiza.

A segunda parte, no entanto, é um território muito diferente. Após a euforia inicial do matrimônio, o casal enfrenta a vida cotidiana. A monotonia do campo, que antes parecia acolhedora, agora pesa sobre Mária. Tolstói retrata essa mudança com uma sinceridade desconcertante, especialmente ao explorar como a juventude de Mária colide com a maturidade de Sergei. Ela anseia por novidade, movimento, enquanto ele se sente confortável na constância. Quando decidem mudar para São Petersburgo, esse contraste é ampliado: Mária brilha nos salões da sociedade, cercada por atenção e elogios, enquanto Sergei observa à margem, preocupado e impotente.

Tolstói é implacável ao descrever o distanciamento que surge entre eles. Os sentimentos que antes os uniam agora os afastam. Mária começa a perceber as limitações de Sergei — sua idade, seus modos simples — e, em meio às festas e às novas experiências, passa a questionar suas escolhas. Sergei, por sua vez, prefere não intervir, acreditando que a jovem precisa explorar essas possibilidades para compreender o que realmente importa. Essa escolha, embora difícil, reflete uma sabedoria rara e dá ao romance uma profundidade que ressoa muito além das páginas.

O grande mérito de “Felicidade Conjugal” está na sua capacidade de capturar as mudanças que inevitavelmente ocorrem em qualquer relacionamento. O amor, na visão de Tolstói, não é uma emoção fixa, mas algo vivo, sujeito ao tempo, às circunstâncias e às escolhas. O que começou como uma paixão intensa dá lugar a algo mais tranquilo, menos glamoroso, mas talvez mais significativo.

Ao longo do livro, Tolstói utiliza elementos naturais — como as estações do ano e as paisagens do campo e da cidade — para refletir os estados emocionais dos personagens. A primavera inicial, que representa o despertar do amor, dá lugar ao verão quente e pleno da convivência inicial, seguido pelo outono, onde as dúvidas e os conflitos surgem, e, por fim, o inverno, com sua calma melancólica e o potencial de renovação.

A conversa final entre Mária e Sergei é um dos momentos mais tocantes da obra. É ali que ela, já mais madura, questiona por que ele não tentou segurá-la quando ela se perdeu nos encantos da sociedade. Sergei responde que há lições que só podem ser aprendidas vivendo, e que ele sabia que ela precisaria percorrer aquele caminho sozinha. Essa honestidade, desprovida de rancor, é talvez o ponto mais forte do romance: uma aceitação de que o amor verdadeiro não é feito de controle, mas de compreensão.

“Felicidade Conjugal” é uma história sobre o que acontece depois do “felizes para sempre”. Tolstói não nos poupa do desconforto de encarar os altos e baixos de uma relação, mas também nos oferece algo valioso: a ideia de que o amor não desaparece; ele apenas muda. Para alguns, essa mudança pode parecer uma perda, mas para outros, é uma oportunidade de descobrir uma conexão mais profunda, construída sobre o respeito e a paciência.


“Felicidade Conjugal”, Lev Tolstói

Editora 34

Avaliação: 5 de 5.

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