Numa aldeia libanesa isolada do mundo, poeirenta e suspensa no tempo, uma igreja e uma mesquita partilham a mesma praça. Cristãos e muçulmanos convivem numa paz precária, cimentada mais pelo hábito e pela geografia do que por uma harmonia profunda. Esta frágil coexistência é ameaçada não por um conflito interno, mas pelos ecos de violência sectária que chegam do exterior, através da única televisão da aldeia. Em ‘E Agora, Onde Vamos?’, a cineasta Nadine Labaki constrói a sua premissa a partir desta tensão iminente. Quando os homens da aldeia começam a espelhar a agressividade que veem nas notícias, são as mulheres, unidas pela perda partilhada em conflitos passados, que decidem tomar o assunto nas suas próprias mãos.
O que se segue é uma conspiração matriarcal, uma série de estratagemas engenhosos e crescentemente absurdos para manter os homens distraídos e em paz. Lideradas pela dona do café, Amale (interpretada pela própria Labaki), e pela esposa do mayor, Yvonne (Yvonne Maalouf), as mulheres de ambas as fés unem-se numa guerrilha doméstica contra o fanatismo. Elas sabotam a televisão, encenam um milagre da Virgem Maria que chora sangue, e, no seu plano mais ousado, contratam um grupo de dançarinas ucranianas para desviar completamente a atenção masculina do ódio para a luxúria. A narrativa avança através de uma sucessão de vinhetas que oscilam entre a comédia musical e o drama latente, onde cada canção e cada plano coreografado serve para sublinhar a artificialidade da paz que elas tentam desesperadamente construir.
A obra de Labaki não se interessa em dissecar as raízes teológicas do conflito. Pelo contrário, o filme trata o dogma religioso com uma certa irreverência pragmática. A religião aqui é um marcador de identidade herdado, uma desculpa para a violência masculina que as mulheres se recusam a aceitar como inevitável. Elas não combatem ideias com ideias, mas sim a irracionalidade da violência com a irracionalidade da farsa. A sua intervenção é profundamente física e terrena: manipulam comida, corpos e informação, usando as ferramentas do quotidiano para desarmar uma ameaça existencial. O filme propõe que a manutenção da paz pode, por vezes, exigir mais criatividade e astúcia do que a própria guerra.
Neste microcosmo, Labaki explora uma espécie de inversão do conceito da banalidade do mal de Hannah Arendt. Se grandes atrocidades podem ser cometidas por pessoas comuns que seguem ordens sem pensar, talvez a paz possa ser mantida através de pequenos atos de desobediência e subterfúgios igualmente mundanos. As mulheres não elaboram um tratado de paz; elas fazem bolos com haxixe para acalmar os ânimos. Elas não promovem um diálogo inter-religioso; elas trocam de identidade religiosa num ato final de solidariedade radical para confundir os homens e forçá-los a questionar por quem, exatamente, estariam a lutar. É uma solução que é, ao mesmo tempo, cómica e profundamente séria na sua implicação.
Visualmente, ‘E Agora, Onde Vamos?’ é vibrante, utilizando as cores quentes da paisagem libanesa e os interlúdios musicais para criar uma atmosfera de fábula moderna. A direção de Labaki é segura, equilibrando o humor com o peso da tragédia que paira sempre no horizonte. O filme não oferece um roteiro universal para a paz no Médio Oriente, mas apresenta uma tese provocadora sobre a agência feminina e a possibilidade de subverter narrativas de ódio através de ações coletivas, mesmo que pareçam desesperadas. A questão que dá título ao filme permanece em aberto, mas a jornada até ela sugere que o caminho pode ser pavimentado não com grandes gestos, mas com a coragem de ser ilógico num mundo que se tornou absurdamente lógico na sua violência.




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