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Filme: “Amor Carnal” (1989), Jan Švankmajer

Em uma Praga de cores dessaturadas, seis indivíduos seguem rotinas aparentemente banais. Uma funcionária dos correios, um burocrata, uma lojista, um apresentador de telejornal e um casal transitam pela cidade e interagem de forma superficial, trocando nada mais que o necessário para o funcionamento do dia a dia. Contudo, por trás da normalidade de suas…


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Em uma Praga de cores dessaturadas, seis indivíduos seguem rotinas aparentemente banais. Uma funcionária dos correios, um burocrata, uma lojista, um apresentador de telejornal e um casal transitam pela cidade e interagem de forma superficial, trocando nada mais que o necessário para o funcionamento do dia a dia. Contudo, por trás da normalidade de suas existências, cada um deles é um conspirador, um arquiteto meticuloso de rituais autoeróticos de uma complexidade assombrosa. Sem uma única linha de diálogo, o filme acompanha a preparação obsessiva destes prazeres secretos, onde objetos do cotidiano são transformados em aparatos de uma satisfação intensamente privada e idiossincrática.

A obra de Jan Švankmajer documenta com uma precisão quase clínica a construção desses fetiches. Vemos um homem que amassa miolo de pão em bolinhas para inseri-las em suas narinas enquanto lê jornais, uma mulher que cria um elaborado sistema de polias para que uma estátua de galo bique seu corpo, e um apresentador de TV que constrói uma máquina com braços de manequim para acariciá-lo, tudo sincronizado com a sua própria aparição na televisão. O surrealismo de Švankmajer não é onírico, mas sim tátil e mecânico. A animação em stop-motion, sua marca registrada, dá vida a galinhas de taxidermia, peixes e bonecas, não como elementos de fantasia, mas como componentes funcionais de uma engenharia do desejo. A materialidade dos objetos e os sons que eles produzem — o raspar, o rolar, o estalar — tornam-se a verdadeira linguagem do filme.

O que se revela é uma investigação sobre a solidão e a inventividade humana na busca pela gratificação. Diante da repressão ou da incapacidade de conexão, o desejo não se anula, ele se reorganiza, construindo universos de satisfação quase solipsistas, onde apenas a lógica do prazer tem validade. A comédia macabra do filme emerge da seriedade e do empenho com que essas pessoas se dedicam às suas criações bizarras. A ausência de julgamento moral por parte da direção permite que a audiência observe essas práticas não como perversões, mas como expressões extremas de uma necessidade fundamental, manifestada através de um artesanato obsessivo.

Amor Carnal, ou Spiklenci slasti em seu título original, é um exercício cinematográfico que articula a psique humana através de texturas, movimentos e sons. A fusão entre atores e objetos animados cria um ecossistema único, onde a fronteira entre o ser vivo e o inanimado se dissolve no altar do fetiche. O trabalho de Švankmajer se posiciona como um comentário potente sobre como os impulsos mais profundos encontram caminhos para se manifestar, mesmo nos ambientes mais cinzentos e controlados. É uma observação fascinante e de humor peculiar sobre as engrenagens ocultas que movem as pessoas quando ninguém está a olhar.


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