Em Estocolmo, Christian é o curador-chefe de um prestigiado museu de arte contemporânea, uma figura que navega com segurança pelos corredores do bom gosto e da retórica progressista. Sua mais nova aquisição, a instalação “The Square”, é um simples quadrado demarcado no chão da praça em frente ao museu, um espaço concebido como um santuário de confiança e altruísmo, onde todos partilham direitos e obrigações iguais. A premissa é elegante, fotogénica e perfeitamente alinhada com os ideais que o mundo de Christian professa. A rotina calculada deste homem, no entanto, é abruptamente fraturada quando, num golpe de rua bem orquestrado, lhe roubam o telemóvel e a carteira. Este evento mundano desencadeia uma série de decisões cada vez mais questionáveis, começando por um plano de vingança pequeno-burguês que o levará a territórios inesperados e profundamente desconfortáveis.
Enquanto Christian tenta recuperar os seus bens e a sua dignidade abalada, uma trama paralela se desenrola. A agência de publicidade contratada pelo museu, composta por jovens criativos que falam a linguagem da disrupção viral, desenvolve uma campanha para “The Square” que aposta no choque para gerar atenção. As duas narrativas, a pessoal e a profissional, avançam em paralelo, espelhando-se de formas cáusticas. A busca de Christian pela justiça individual revela a sua hipocrisia e a fragilidade do seu próprio código moral, enquanto a campanha de marketing do museu expõe a distância abissal entre o discurso humanista da arte e as táticas cínicas usadas para a promover. Ruben Östlund constrói uma comédia de costumes impiedosa sobre a elite cultural europeia, examinando a sua ansiedade e a sua culpa.
O filme atinge o seu clímax numa cena de jantar de gala que já se tornou icónica no cinema recente. Durante o evento, um artista performático que imita um primata é solto entre os convidados. O que começa como uma performance artística desconcertante, um teste aos limites do público endinheirado, escala gradualmente para uma situação de ameaça genuína. É aqui que o conceito de contrato social, a base teórica da instalação “The Square”, é testado de forma visceral. As regras de civilidade desmoronam-se perante o medo primordial, e a plateia, antes tão segura de si, revela a sua verdadeira natureza. Östlund filma a sequência com uma precisão cirúrgica, esticando a tensão até ao ponto da rutura e forçando uma introspeção sobre a fina camada de verniz que separa o homem civilizado do animal.
Através de uma câmara frequentemente estática e observadora, que enquadra os seus personagens em composições simétricas e frias, a análise de Östlund sobre a sociedade moderna torna-se evidente. O filme funciona como uma sucessão de vinhetas satíricas que dissecam a masculinidade em crise, a falha da comunicação na era digital e a performatividade das boas intenções. Cada situação embaraçosa, desde uma discussão sobre um preservativo usado a um confronto com uma criança num prédio de apartamentos, serve para desmontar as certezas de Christian e, por extensão, as de uma classe social inteira. A análise que ‘The Square: A Arte da Discórdia’ propõe não é sobre a arte em si, mas sobre o comportamento humano que a rodeia, revelando as contradições de quem prega a empatia a partir de uma posição de absoluto privilégio.




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