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“A Possibilidade de uma Ilha” é brilhante ao explorar um corpo em declínio

Livro é uma das obras mais ambiciosas e obscuras do escritor francês Michel Houellebecq

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Michel Houellebecq frequentemente escolhe alvos para serem aniquilados em suas obras. Em “Extensão do domínio da luta”, seu romance de estreia, o autor narra o surgimento dos incels pós-revolução sexual; com “O Mapa e o Território”, satiriza o mundo da arte; e com “Submissão”, arremessa uma granada na sociedade francesa que assiste a sua cultura ser extorquida sem fazer nada.

“A Possibilidade de uma Ilha”, no entanto, amplia o campo de ataque de Houellebecq, que deixa de ter como foco alvos específicos e passa a ter a ambição de fazer uma análise da natureza humana. Assim como em suas obras anteriores “Plataforma” e “Partículas Elementares”, aqui o sexo tem protagonismo e é um dos responsáveis pela decadência do homem. Daniel, personagem principal, declara que “o prazer sexual não era apenas superior, em refinamento e violência, a todos os outros prazeres que a vida tinha a oferecer. Era, na verdade, o único prazer, o único objetivo da existência humana, e todos os outros prazeres – seja associados a comidas ricas, tabaco, álcool ou drogas – eram apenas compensações desprezíveis e desesperadas, mini-suicídios que não tinham a coragem de pronunciar seus nomes, tentativas de acelerar a destruição de um corpo que não tinha mais acesso ao único prazer real”.

Michel Houellebecq. Foto Divulgação.

O protagonista é um comediante que posteriormente se torna um diretor de cinema. Assim como Houellebecq, Daniel é um satirista transgressor que provoca o público com obras como “Chupe minha Faixa de Gaza” e “Preferimos as prostitutas palestinas” e coloca as pessoas em uma posição onde não sabem se riem junto ao artista ou se ficam ofendidas com tamanha barbaridade. Após anos de sucesso em sua carreira, Daniel ficou milionário, mas agora enfrenta o declínio do seu corpo com a proximidade dos seus cinquenta anos.

Enquanto o prazer sexual é a única justificativa para a existência humana, o envelhecimento do corpo não permite atingi-lo, embora o desejo continue lá, fazendo a vontade existir e causar angústia por não poder ser consumada. A decadência é intensificada com a contemporânea ideia de que esse mesmo prazer sexual seria uma espécie de direito humano básico.

O transcendental torna-se uma das saídas que Daniel toma para fugir da angústia e da decadência, após dois relacionamentos fracassados, um com uma mulher de pouco apetite sexual que se tornara muito velha para ele; e outro com uma mulher que era muito jovem e vivia o sexo como uma satisfação narcísica. Enquanto se relacionava com essa segunda, Daniel narra uma cena em que vagueia entre uma multidão em orgias “como uma espécie de monstro pré-histórico com minha tolice romântica, meus apegos, minhas correntes.”

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Daniel, descobrimos, não é o único narrador do romance; ele é designado como “Daniel1” e, à medida que a história se desenrola, percebemos que ele é o progenitor de uma linha de Daniels clonados, fruto da sua adesão à seita religiosa dos Elohim. Um segundo narrador, designado como “Daniel24”, intercala sua narrativa com a de Daniel1, em um futuro distante, onde Daniel24 e seus colegas “neo-humanos” vivem em um mundo devastado por desastres ambientais e quase completamente desprovido de interação humana. Após o fim de Daniel24, surge Daniel25 que toma seu espaço e também narra intercalando com Daniel1.

Por meio dos relatos dos neo-humanos clonados de Daniel, conhecemos um mundo em que a reprodução é agora realizada em laboratório e o sexo já não mais existe, ao passo que com a possibilidade da clonagem, a morte deixa de ser uma preocupação.

Na ausência da necessidade de sexo e morte, os clones neo-humanos descobriram que todas as emoções humanas se extinguiram ao longo dos séculos. Daniel24 olha para a angústia paralisante e o desejo incontrolável de seu criador como aspectos de um ser antigo e irreconhecível. Ele confessa que “a distorção expressiva súbita, acompanhada pelas risadas características que [Daniel1] chamava de riso, é impossível para mim imitar; eu nem consigo imaginar seu mecanismo”.

“A Possibilidade de uma Ilha” é um dos livros mais ambiciosos e obscuros de Michel Houellebecq. Mas além de fazer o diagnóstico da nossa decadência, o autor também traz uma solução, que pode ser vista nos momentos em que Daniel está apaixonado e se relacionando com a mulher que ele ama. A solução talvez justifique o título da obra, afinal o que é o amor senão um ponto isolado no meio de um oceano de angústias que é a vida.


“A Possibilidade de uma Ilha”, Michel Houellebecq

Editora Record

Avaliação: 5 de 5.

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