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“Plataforma” chega ao leitor como um coquetel incendiário

Em um de seus melhores livros, Michel Houellebecq ataca a globalização, o islamismo, o livre comércio, o sexo, o trabalho, o turismo, o consumo, e o neoliberalismo

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Em um de seus melhores livros, Michel Houellebecq ataca a globalização, o islamismo, o livre comércio, o sexo, o trabalho, o turismo, o consumo, e o neoliberalismo


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Com os livros já publicados, é possível definir o que seria um personagem houellebecquiano: um homem branco, hétero, ocidental, burocrático, sem nenhuma crença no transcendental, incapaz de manter relações duradouras e que, na casa dos quarenta anos, acha que sua vida já acabou. Michel Renault, protagonista de “Plataforma”, não foge desse perfil de personagem que Michel Houellebecq frequentemente explora.

O início de “Plataforma” é potente. Após perder seu pai de uma forma cruel, Michel Renault, um funcionário do Ministério da Cultura, decide utilizar o dinheiro que herdou para tirar férias e explorar o turismo sexual na Tailândia. Durante essa viagem conhecemos mais profundamente ele e também os outros personagens que estão ali naquele lugar em busca de sexo.

A escrita de Michel Houellebecq é tão sofisticada que faz com que o leitor não sinta nenhuma mudança brusca ao ler sobre uma casa de prostituição tailandesa, logo após ler a beleza paisagística da Ásia, e então voltar para as conversas dos turistas de como a buceta da mulher ocidental secou e não é mais páreo para a vagina molhada e confortável das orientais.

Houellebecq, por meio do dia a dia desses turistas na Tailândia, nos convida a refletir como que a eterna busca por autoconhecimento, independência e racionalização fez com que as mulheres ocidentais deixassem o sexo de lado, e como no Ocidente, impregnado pelo politicamente correto, não existe mais espaço para a paixão. Isso faz com que os homens ocidentais atravessem o globo para conseguirem um pouco de diversão com mulheres que ainda, segundo o protagonista Michel Renault, “sabem como tratar um pau”.

Apesar de estar ali em busca tão e somente de sexo, o protagonista conhece Valérie, uma parisiense que também está na Tailândia para se divertir. Michel e Valérie não se envolvem durante a viagem, embora terem ficado interessados um pelo outro, mas a relação entre os dois acontece quando a viagem chega ao fim, quando ambos voltam para Paris.

Depois da viagem, a história dá uma guinada. A relação de Michel e Valérie se aprofunda e ela parece trazer um pouco de sentido para a vida do protagonista; conhecemos a vida de Valérie e a reconhecemos como uma jovem e ousada executiva do setor de hotelaria; somos apresentados aos outros personagens amigos do casal, todos com suas vidas medíocres que parecem não ter solução; e por fim descobrimos que a existência, se tudo seguir o normal, acaba na tragédia.

Por questão de misericórdia, essa resenha não dará spoiler, mas termino dizendo que este talvez seja o livro em que Michel Houellebecq esteja em sua melhor forma: feroz e sem piedade, atirando um coquetel incendiário em tudo o que acreditamos. “Plataforma” ataca a globalização, o islamismo, o livre comércio, o sexo, o trabalho, o turismo, o consumo, e o neoliberalismo.


“Plataforma”, Michel Houellebecq

Editora Alfaguara

Avaliação: 5 de 5.

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